Já dá pra saber o status de um 007 aposentado muito cedo no filme quando, em vez de abrir com uma cena de ação tradicional da franquia, o longa abre com uma lembrança de outra personagem.

De todos os experimentos com James Bond que já usaram Daniel Craig como cobaia, é surpreendente que a essas alturas ainda se consiga convencer com a carta na manga da aposentadoria em Sem tempo para morrer. 

Ao mesmo tempo, soa óbvio porque era essa a oportunidade de arriscar. Só mais um filme com o cara que todo mundo já sabia que estava de saída. Por que não jogar de vez com as cartas de um agente que realmente estava aposentado e levando uma vida bucólica de isolamento?

Tanto funcionou que a coisa que menos parece fazer sentido dentro do roteiro é o retorno dele. A ideia de que ele era realmente necessário aqui, de que sua substituta não daria conta. Vi alguém comentando por aí, de canto de olho, que é um melodrama disfarçado de ação ou coisa assim. Faz todo sentido porque o 007 (aliás até o número ele perdeu) fica deslocado dentro do próprio filme. 

A pergunta que me fiz um bocado de vezes, a partir disso, foi o porquê da gente não ver mais de Lashana Lynch (sua substituta). Uma agente que parece mais preparada, mais habilidosa, cuidadosa e profissional pra dar conta da missão mas que o filme teima em transformar em uma coadjuvante incompetente que sempre parece chegar atrasada nos lugares. 

Parece que ela está sempre quase lá, que ela é muito melhor que James, que ela se torna realmente a agente ideal para a organização. Mas a gente nunca enxerga isso de verdade.

Nessa lógica, a ação encontra o protagonista. Não só se explodindo em cima dele num túmulo mas envolvendo a sua família e todas as conexões que ele cria fora da vida de agente secreto. Meio a ideia clássica Michael Corleonística de “quando eu pensei que estava fora, eles me puxam de volta”

O desconforto geral das decisões de enredo vem com isso. O final desnecessariamente trágico e inexorável, as pontas soltas amarradas à força, um filme de ação engolindo outro que parecia que seria muito mais abstrato, filosófico e dramático. 

Saem as discussões de relacionamento; somem os momentos The Office com Moneypenny e Q nos escritórios da MI6; perde-se o bucolismo da vidinha isolada do protagonista no Caribe; e entram no lugar as perseguições, a megalomania de um vilão bem fraco, as ameaças à humanidade e o único homem que pode enfrentá-las. 

A sorte das cenas de ação funcionarem não necessariamente equilibra a disparidade do longa mas ao menos fortalece a ideia de que se tem algo que costura Sem tempo para morrer do início ao fim é que ele é sobre esse cara. Sobre o James (e sobre Craig) se despedindo do cargo que o elevou a um aspecto de personagem lendário. 

Aqui não dá pro fã da bagunça que é a era Craig não esboçar um sorriso ao ver um túnel longo se fazendo da sequência clássica de cano da arma. Ou não se emocionar um pouquinho com o plano longo de ação em que ele sobe a escadaria de um bunker. 

Não só porque a cena é bem coreografada e decupada mesmo dentro de um plano único, mas também porque ela evidencia as humanidades de Bond. O cansaço, a dor e as fragilidades que fazem dele o melhor 007 da história enquanto intérprete e personagem. 

(um momento tão bem construído que chega a ser irritante o embate tosco com o vilão que vem logo em seguida)

É onde a obra finalmente se acomoda como o que ele consegue ser de melhor, no fim das contas, que é menos um filme e mais uma despedida dessa série de filmes amaldiçoada pela qualidade de Cassino Royale. Que de tão bom forma uma sombra de expectativa nunca alcançada nas suas quatro continuações.

O que falta pra acalmar essa irregularidade e esse desequilíbrio que faz da experiência de assistir tão cheia de altos e baixos é escolher uma unidade a ser seguida. Mas talvez fosse pedir demais de um filme com objetivos comerciais tão evidentes de virar a página e findar uma era.

no time to die, Inglaterra, 2021
direção: Cary Joji Fukunaga
roteiro: Robert Wade Neal Purvis Cary Joji Fukunaga Phoebe Waller-Bridge
fotografia: Linus Sandgreen
montagem: Elliot Graham Tom Cross
elenco: Daniel Craig Léa Seydoux Rami Malek Ralph Fiennes Ana de Armas Amor Evans Christoph Waltz Ben Whishaw Lashana Lynch Naomie Harris Jeffrey Wright Billy Magnussen David Dencik Rory Kinnear Dali Benssalah Brigitte Millar Coco Sumner Michael Herne Lourdes Faberes Gordon Alexander Lisa-Dorah Sonnet Maya Khosrowshahi Hugh Dennis Priyanga Burford Nicola Olivieri Pio Amato Andrei Nova Coline Defaud Mathilde Bourbin Gediminas Adomaitis Amy Morgan Lizzie Winkler Andy Cheung Hayden Phillips Joe Grossi Javone Prince Rae Lim Steve Barnett Tuncay Gunes Clem So Denis Khoroshko Philip Philmar Raymond Waring Eliot Sumner Rod Hunt Ahmed Bakare Douglas Bunn Toby Sauerback Julian Ferro David Olawale Ayinde Zoltan Rencsar Ross Donnelly John Farrer Paul O’Kelly Michael G. Wilson

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