Não sei se é uma influência direta mas. Melhor que Seven, só os filmes que repetiram essa fórmula nos anos seguintes. O policial com uma vida desgraçada, a cidade como símbolo de opressão, o serial killer invencível. As chagas psíquicas deixadas para trás junto do rastro de sangue. 

Dá pra argumentar que é só uma ideia de film-noir elevada à enésima potência enquanto despida de algumas marcas óbvias. Tira-se a femme fatale, tira-se a luz dura que recorta as sombras, deixa só o definidor fundamental do gênero: a espiral de melancolia inescapável que suga o detetive de uma forma ou de outra. Ambientes e contextos desgraçados que moldam quem vive ali à sua imagem. 

Cura lida ainda por cima com um aspecto quase sobrenatural na sua centralidade. Meio que evoca o pioneirismo do cinema de suspense. Antes do noir, quando os diretores que inventaram estes gêneros usavam das formas da fotografia como articulações do terror expressionista. 

Aqui, por mais complexo que o filme faça parecer sua trama de habilidades ancestrais que perturbam a cidade, o que importa é só isso: o detetive, o assassino invisível que deixa uma marca, a forma como o monstro mesmeriza seus perseguidores. 

Kurosawa articula isso muito sagaz e ainda assim com um certo naturalismo que quase se esconde nas cenas em que deixa seu protagonista sozinho, olhando para “nada”.

Quando ele caminha pelo túnel de onde o criminoso arrancou um cano de metal que se tornaria uma arma, ele fica parado, encarando uma luz que pisca sempre num mesmo ritmo; quando ele fuma no terraço observando o horizonte cinzento da cidade, um ponto vermelho cadenciado liga e desliga numa torre ao fundo; quando ele passa diversas vezes por uma lavanderia, um pêndulo balança sem parar num relógio na vitrine da loja ao lado.

(isso enquanto ele próprio parece não ser atingido pelos elementos naturais que o criminoso utiliza em outros. A água na torneira vazando e o fogo no seu isqueiro)

É como se o próprio filme hipnotizasse seu protagonista, assim como faz com nós mesmos. Não só como detalhe mas como reforço de uma obra que lida com essa repetição rítmica da vida urbana, das visões de violência que atormentam quem vive ali. Articulando esse contexto muito caro e atemporal de como a vida nestas cidades nos atinge.

Outro detalhe que traz ainda o aspecto hipnótico do próprio cinema são os interrogatórios, vistos do lado oposto de um espelho falso e que enquadram o suspeito iluminado por uma série de luminárias quadradas que criam uma forma de um rolo de filme. 

A falta de identidade deste assassino fortalece tudo isso. Numa cidade que não se apresenta de forma clara e nas vítimas marginalizadas, é como se o filme retratasse uma violência onipresente e onipotente mesmo que invisível. Uma maldição entregue dos tempos passados até os atuais. Inescapável. Irresolvível. Mesmo que as pontas soltas todas se amarrem.

キュア, Japão, 1997
direção: Kiyoshi Kurosawa
roteiro: Kiyoshi Kurosawa
fotografia: Tokushô Kikumura
montagem: Kan Suzuki
elenco: Koji Yakusho Tsuyoshi Ujiki Anna Nakagawa Yukijiro Hotaru Yoriko Douguchi Denden Ren Osugi Masahiro Toda Misayo Haruki Shun Nakayama Akira Otaka Shôgo Suzuki Touji Kawahigashi Hajime Tanimoto Taro Suwa Takeshi Mikami Makoto Kakeda Taijiro Tamura Masato Hagiwara

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