Curioso que justo nas mãos de Adrian Lyne, um cineasta de um cinema maneirista e sensual, Lolita encontre uma versão muito mais apoiada no aspecto dramático do protagonista do que de uma exploração do suspense ou do aspecto erótico por si. 

É onde a personagem título é menos uma ninfeta provocativa e mais uma pré-adolescente insuportável. Onde o peso sensorial vem menos de entendermos o porquê da atração e mais da luta interna de um homem que se apaixona por uma criança.

É um tratamento da pedofilia que fundamenta essa história de um jeito muito mais dramático que o suspense que Kubrick construiu. Um filme que não passa pano para o professor mas também que não o condena. Isso muito por conta deste ser um dos filmes mais sisudos e clássicos de Lyne enquanto diretor.

É muito minucioso no formalismo mas ao mesmo tempo muito menos apoiado numa perspectiva irônica de sociedade como alguns de seus outros longas. É uma direção séria que busca nos colocar na cabeça de um homem que em tese é bom mas que na prática faz algo monstruoso. 

Uma provocação que não aponta o dedo como em Infidelidade ou Proposta Indecente, mas que nos coloca lado a lado com o ser desgraçado no centro de tudo.

Coisa que dá pra entender como algo que possa ter sido rechaçado até, mas que é muito firme na sua defesa de uma visão desse cara como uma vítima dos próprios desejos. Uma pessoa que deveria, se fosse fazer o certo, trancafiar sua libido porque pô-la em prática passa por um ato de violência inescapável.

O que a outra versão de Lolita torna em um suspense noir, esta concretiza quase numa forma de terror psicológico na sequência final. 

Confrontar o outro personagem monstruoso, numa casa que é como mausoléu, é como confrontar um espelho deformado do que ele pode se tornar. E Lyne filma isso como tal. Como um homem que entra no covil de um monstro. 

A narração e por consequência as frases poéticas (que provavelmente vêm do livro) envelopam bem, no fim das contas, o aspecto mais melancólico dessa tragédia. Mais que uma muleta para sintetizar as emoções do personagem, aquilo se torna um agouro. Como se ele falasse de si próprio enquanto se descola do próprio eu.

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lolita, eua, 1997
direção: adrian lyne
roteiro: vladimir nabokov stephen schiff
fotografia: howard atherton
montagem: david brenner julie monroe
elenco: jeremy irons dominique swain melanie griffith frank langella suzanne shepherd keith reddin erin j. dean joan glover pat perkins ed grady angela paton michael goodwin ben silverstone emma griffiths malin ronald pickup

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