Sei lá o que é mais desconcertante, se é essa inversão problemática de papeis em questões de assédio sexual, o coitadismo que o enredo imprime no marido infiel que é o protagonista ou se é que, no fim das contas, todos os temas potencialmente problemáticos são tratados com menos importância que o suspense corporativo banal ou as cenas toscas de realidade virtual que assolavam Hollywood naquela décda. 

Levinson nunca foi um grande diretor. Nem muito formalista nem muito classicamente invisível, todas as vezes que o filme quer aparecer fica muito com um ranço de uma tentativa de construir algo. Mas o todo é muito banal.

Se tem algo magnético aqui, entretanto, e é nesses detalhes que o diabo (do problema com representação de assédio) aparece, é Demi Moore no seu auge de tudo. Isso pensando além da sensualidade de femme fatale, embora isso seja uma parte grande e importante da personagem. Mas o fato é que nas mãos certas, Meredith Johnson teria hoje em dia um potencial de se equiparar com Amy Dunne nesse tipo de mulheres que exercem poder em ambientes onde homens não esperam.

Pena que o filme seja tão bananão para lidar com tudo. Duas, três, quatro vezes alguém fala de que sexo é poder e discute como relações de gênero funcionam dentro de cenários assim, mas é literalmente só da boca pra fora. Só no diálogo. 

Em nenhum momento o filme escapa do script tradicional de clichês de suspenses da época. Algum telefonema ameaçador, alguma cena num estacionamento escuro ou sei lá, alguma tentativa perigosa de buscar uma prova que vai livrar o “mocinho”. 

O que não envelheceu mal pelas questões sérias de tema, envelheceu morno pelas questões estéticas. 

E o que tem de mais interessante visto aos olhos de hoje é como o personagem de Michael Douglas passa por todos os problemas que mulheres passam no mundo real. A violência sexual, o medo de denunciar, a denúncia, a tentativa de chantagem, o poder usado contra a vítima, o ataque ao nome, à família, à carreira. 

O foda é que o filme termina com a lição de que “é só ter coragem e ir até o fim que tudo se resolve”.

disclosure, eua, 1994
direção: barry levinson
roteiro: paul attanasi michael chricton
fotografia: tony pierce-roberts
montagem: stu linder
elenco: michael douglas demi moore donald sutherland dylan baker jacqueline kim roma maffia caroline goodall rosemary forsyth dennis miller suzie plakson nicholas sadler donal logue

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