Das primeiras adaptações ao cinema falado da peça, Senhorita Júlia ou Miss Julie de Alf Sjöberg é também provavelmente a mais cinematográfica no sentido experimental da palavra. Adaptando o diálogo que é a coluna central desse enredo para uma exploração torturante do passado de seus personagens. Enquanto traz mais e mais à tona o tema muito pungente do crepúsculo da aristocracia retratado no texto que August Strindberg escreveu no final do século XIX.

Da matéria de origem vem os choques e encontros entre o velho e o novo, o pobre e o rico, o pagão e o divino. A ambientação numa celebração pagã pelos servos daquele condado junto do dia da missa de São João Batista. A mansão e a cozinha anexa. A solidão do átrio gigantesco e o calor do celeiro onde todos dançam. Uma repetição dessa ideia de classe que viria a se tornar até um lugar comum no cinema pós-moderno mas que nem sempre era tratada com esse cinismo antes de meados dos 1950s.

No centro, a filha do conde, Julie, seduz o valete de seu pai, Jean. Enquanto a festa continua lá fora, o cavalariço vivido por um jovem Max Von Sydow anda a esmo pela propriedade e a noiva de Jean, a cozinheira Kristin, dorme curtida pelo vinho da celebração. 

A força da peça e o incômodo da relação de poder e provocação vem da personalidade da personagem título. Mimada, com muito poder nas mãos e sem um pingo de empatia, Julie é instável e ciente de seus privilégios embora se encante com a vivacidade dos pobres com os quais convive. Meio Scarlett O’Hara, meio a personagem de Mariana Ximenes em O Invasor. (ou na novela América, de Glória Perez)

A violência contra seus servos tem uma certa brutalidade mas que ela não percebe. Coisa que o diretor ilustra da forma mais simples e eficaz possível ao ocultar os golpes que ela dá no seu cachorro treinado mas ao mostrar claramente os que ela desfere contra o empregado. E Anita Björk carrega em cada olhar enquadrado de muito perto uma certa satisfação com isso embora, ao mesmo tempo, traga seus traços de instabilidade emocional nesses mesmos planos. Como se fizesse muito esforço para manter uma pose.

Jean é um joguete, até certo ponto, mas por outro lado demonstra a sagacidade de justamente jogar com essa situação tomando conta da cena. Esclarecendo a importância da marcação de atores em um filme que em tese teria apenas um cenário de acordo com a peça mas que se expande para além da cozinha. 

Da escolha mais controversa mas ao mesmo tempo mais ousada, vem a forma como o filme ilustra o passado. Não relegando o que os personagens descrevem como momentos formadores de seus caráteres e de suas histórias aos monólogos dos atores. Mas materializando isso em cenas de flashback que ocupam aqueles mesmos espaços e que integram o presente e o passado de um jeito quase imperceptível. Dividindo os cenários entre os dois tempos. 

Como quando Jean toma uma surra do pai depois de invadir o casarão e, quando a tomada se abre e se afasta da ação, revela a presença de Julie entre os transeuntes que assistem àquela violência. Com uma expressão que é um misto de choque e compaixão. Da mesma forma, quando é a vez dela revelar os altos e baixos e o trauma de seu passado, é pelo plano que flutua no salão e passa pelo retrato imenso da mãe que o antes se transforma no agora.

O que não só traz um aspecto moderno à estética do filme mas reitera um certo desencontro constante no vaivém labiríntico do que o filme retrata. Mesmo na trágica cena final, onde personagens não conseguem se ver a tempo antes que algo ocorra e, quando isso se concretiza, já é tarde demais. 

Dá pra dizer que essa ida muito profunda ao passado aleija o filme de suas capacidades teatrais. Enquanto tira do talento dos atores o peso de concretizarem no poder do diálogo seus próprios traumas. Mas é uma escolha que não obstante nos faz pensar na questão transitória retratada aqui. Ainda que em detrimento de uma aproximação maior com esses personagens.

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fröken julie, suécia, 1951
direção: alf sjöberg
roteiro: alf sjöberg august strindberg
fotografia: göran strindberg
montagem: lennart wallén
elenco: anita björk ulf palme märta dorff lissi alandh anders henrikson inga gill max von sydow åke fridell kurt-olof sundström margaretha krook åke claesson inger norberg jan hagerman ulf qvarsebo sture ericson svea holst signe lundberg-settergren helga brofeldt john hilke gösta qvist gregor dahlman torgny anderberg eric laurent martin ljung john norrman marianne karlbeck carl andersson frithiof bjärne hartwig fock eric von gegerfelt sven arvor per-axel arosenius holger kax georg fernquist curt broberg birger lensander wilma malmlöf kerstin moheden sonja rolén ingrid björk maud walter olle ståhl åke björling bengt sundmark olle ekbladh erik forslund karin miller agda helin barbro larsson marie-louise hultman monica lindman lillemor levin gertrud lilienberg jane von knorring else-marie brandt elsie ellingsson sven-olof bern åke lindström svante odqvist sven sjönell carl-olov skeppstedt gösta lycke bibi andersson

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