Dá pra ficar viajando nos porquês do filme a julgar pela premissa. Por que fazer um filme sobre aborto num país onde esse direito já foi conquistado há quase cinquenta anos? É uma celebração? É um lembrete que esse mundo já foi pior? É uma obra direcionada a outros lugares? 

Cai como uma luva, infelizmente, num contexto do ano em que direitos reprodutivos da suposta maior democracia do mundo foram sabotados na calada da noite. Num belo dia, dezenas de milhões de mulheres dos Estados Unidos acordaram sem ter um país que garanta o direito delas ao que fazer com os próprios corpos. 

Mas o filme aqui, não só porque foi produzido antes que isso aconteça ou porque é inspirado num livro de vinte anos atrás, parece que tem outras razões de ser. Funcionando como um registro. Como uma resposta a todas as perguntas ali em cima. O Acontecimento celebra, lembra que já foi pior, serve de aviso para a maior parte do mundo que ainda não deu esse passo básico.

Audrey Diwan faz isso com uma proximidade de Anne, a estudante que engravida nos 1960s e tem seu futuro ameaçado por isso (alter ego da autora do livro, Annie Ernaux, que passou por algo assim naquela década). A diretora não larga de suas escolhas simplistas de naturalismo. Enquadrando a protagonista de perto, com a câmera na mão e a razão de aspecto clássica de 4:3 que cada vez mais a isola de tudo e todos. Deixando difícil até de identificarmos companhias, situações e lugares.

Coisa que soa tosca narrativamente mas que colabora para a ideia de registro. Não é um filme que carece de uma estética própria mas ao mesmo tempo não é um que busque qualquer coisa mas complexa no seu retrato. Isso pra deixar espaço para a tensão, o mal estar, a preocupação e o medo. Coisa que vem da situação dela. Do acontecimento em questão e dos pequenos acontecimentos que o precedem. 

E tanto a cineasta sabe disso que ela faz tudo o que faz por um certo minimalismo de estilo. Com a decupagem e o ritmo necessários tão somente para nos colocar na pele de Anne. 

Difícil não se lembrar ou comparar com Nunca, raramente, às vezes, sempre. A diferença essencial aqui (além das óbvias da situação legal e social de cada protagonista) é a personalidade mais combativa desta protagonista. Como se ela se agarrasse à tal solidão que é materializada sobre ela como algo que lhe dá forças para dar os próprios passos. 

Embora os paralelos existam. A alça do sutiã como simbolismo de algum controle sobre os corpos femininos logo no início. Ou mesmo um certo aspecto de sororidade que é tácito. Como se em qualquer lugar uma mulher possa reconhecer na outra a participação de um grupo definido por sofrimentos cotidianos em comum.

Menos melancólico, O Acontecimento parece estar aqui, no fim, para lembrar a quem participa desse clube (ser mulher) da infeliz constatação de que possuir uma certa capacidade de resiliência e adaptação não necessariamente é uma escolha. Tanto que a obra nunca foge de mostrar o que precisa mostrar. Da nudez frequente e necessária para certas cenas até o aspecto mais gráfico ou sugestivo do que aquele corpo sofre para seguir em frente.

Numa cena, Anne se despede da mãe como se não soubesse se volta. Depois de saborear uma última refeição e um último momento com seus pais rindo de um programa de rádio. E quando o aborto finalmente acontece. Ele acontece como uma vitória. Como um alívio. Com o som e a imagem necessários para a materialização disso. Não como uma celebração de missão cumprida. Mas como um alívio de não morrer.

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l’événement, frança, 2022
direção: audrey diwan
roteiro: marcia romano, audrey diwan
fotografia: laurent tangy
montagem: geraldine mangenot
elenco: anamaria vartolomei kacey mottet klein luàna bajrami louise orry-diquéro pio marmaï sandrine bonnaire cyril metzger anna mouglalis fabrizio rongione julien frison alice de lencquesaing françois loriquet louise chevillotte leonor oberson louis bédot isabelle mazin eric verdin édouard sulpice leila muse madeleine baudot

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