Experimentação, performance, fragmentos de filmagens antigas. O décimo Olhar de Cinema de Curitiba reforça uma posição muito particular e muito singular em se tratando de linguagem e de modernidade audiovisual como foco de sua seleção. É a segunda vez que eu o acompanho a distância e mal posso esperar para cobri-lo in loco a partir do próximo ano. Abaixo as críticas dos longas e curtas conforme elas vão sendo escritas.

Vida longa ao olhar de cinema.

O protetor do irmão, Ferit Karahan, 2021

O que mais chama atenção é como Karahan é espirituoso falando de um filme que, em suma, é sobre um dos braços da ditadura turca na destruição da cultura do Curdistão. Um internato para crianças de uma nação que sofre um processo ativo de apagamento nos países do oriente médio e que ainda não tem (e talvez nunca tenha) um estado para chamar de seu.

Um menino que adoece como fruto dos abusos físicos e psicológicos, um grupo de adultos professores e diretores alheios a isso e a responsabilidade nos ombros de um amigo que também é uma criança. 

Ainda assim, o cineasta cria um filme que, enquanto reforça todo esse lado pesado e horroroso da realidade, mantém no ritmo, na falta de rumo dos personagens, na construção do microcosmo da escola, uma certa leveza fria. 

Então, a gente ouve, de um jeito bem clichê, pela boca da professora de geografia na aula e pelas conversas nos corredores, pedaços de informação que montam o quebra cabeça sociopolítico ali. 

O isolamento numa região mal habitada, fria, isolada. O moralismo militarista de estado sobre aquelas crianças. Tudo disfarçado de “coisas que o estado oferece a eles”. Isso enquanto eles são repreendidos por não usar o idioma turco vez ou outra.

Na ambientação, não só a neve reforça a ideia de quão acastelados eles estão como também a própria estrutura de crianças responsáveis pela punição de seus pares. A hora do almoço, a rigidez das relações, concretiza aquela ideia batida de como escolas são como prisões. Mais que isso, o cineasta sutilmente usa de uma tela mais fechada, que reforça a ideia de isolamento no todo. 

Mas nesse corre corre de lá pra cá e na infinidade de tentativas do menino tentar salvar o amigo assumindo para si as rédeas da situação, criam-se momentos agridoces e absurdos. Ele caminha, pede, fala, confronta os adultos sem nunca ser ouvido. É como se as figuras de autoridade só consigam demonstrar essa autoridade punindo. 

Em outros momentos,quando tudo vira um problema e o filme se torna um fuzuê burocrático, todo mundo que entra na enfermaria escorrega. Quase como uma alegoria da falta de jeito das autoridades em resolver qualquer coisa. 

A comicidade da ineficiência e a leveza escondendo temas mais densos libertam o filme de cair num dramalhão típico. Ao mesmo tempo, faz com que ele fique mais tempo conosco. Fazendo mais orgânica a reflexão sobre o que é retratado ali.

Okul Tıraşı, Turquia, 2021
direção: Ferit Karahan
roteiro: Ferit Karahan Gülistan Acet
fotografia: Türksoy Gölebeyi
montagem: Hayedeh Safiyari Ferit Karahan Sercan Sezgin
elenco: Ekin Koç Mahir İpek Cansu Fırıncı Melih Selçuk Münir Can Cindoruk Samet Yıldız Nurullah Alaca

O telhado, Kamal Aljafari, 2006

A voz de Aljafari e de muitas pessoas que fazem parte dessa mesma demografia se equilibra entre o privilégio de viver num estado sólido e mais “tranquilo” que quem vive na Faixa de Gaza; e ao mesmo tempo a tragédia de ser muito menos que um cidadão palestino do estado palestino. A de ser um cidadão palestino árabe num estado judaico que luta para que uma cultura irmã deixe de existir ali. 

O telhado lida com isso ora por um diário, ora por um retrato do cotidiano mas sempre por essa lente de pressão cultural estatal constante. É como se a sua família fosse invasora dentro do próprio lar.

A imagem mais poderosa nesse sentido deve ser a de uma casa parcialmente destruída por um acidente de obra. Os motivos podem não ser políticos, podem ser fruto do puro acaso. Mas o resultado: um quarto, uma sala, uma cozinha perfeitamente arrumados e funcionais de um lado mas complatamente demolidos e e aos escombros de outro, se torna uma metáfora concreta do que é ser árabe num estado sionista. 

Estruturalmente é repetitivo. Vai e vem para as mesmas questões mas encontra ainda assim, no meio desse ciclo, um retrato bem puro do cotidiano. Um cotidiano banal, bucólico de uma família que o estado não quer que exista. O filme é, então, uma peça de resistência quando se faz a partir das imagens das conversas jogadas fora, das refeições ao redor da mesa, do chá com TV. 

O telhado inexistente na casa da família remete à violência mas no fim atua também como o teto de vidro proverbial de um país que é criado a partir de uma população perseguida mas que usa sua força para perseguir outra. 

Al Sateh, Palestina, 2006
direção: Kamal Aljafari
fotografia: Diego Martinez Vignatti
montagem: Kamal Aljafari

Zinder, Aicha Macky, 2021

O que impressiona é que de alguma forma Aicha Macky consegue surpreender com a estrutura do seu documentário mesmo com esse tema.

Mesmo que trate de gangues no pior distrito (Kara-Kara) da cidade mais violenta (Zinder) do pior país para se viver no mundo de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (Níger), o filme abre com um retrato pitoresco dos componentes de uma gangue que consegue distorcer símbolos nazistas a ponto de ser reconhecida visualmente como um grupo de homens musculosos que passeiam de moto abanando suásticas por aí. 

(segundo um deles, pelo que ele ouviu falar, Adolf Hitler era um americano conhecido por ser um grande guerreiro)

No início parece um grupo saído de um filme dos anos 80 ou 90. Se mostrando pra câmera. Levantando pesos improvisados, halteres feitos de partes de motor de carros, fazendo flexões sobre pedregulhos. Entre eles, uma personagem intersexual (que nasceu com duas genitálias) e fez um nome pra si como traficante de combustível na região. 

Num momento ou outro: a estranheza vem pelas arestas do diálogo. Diálogo este com a documentarista que veio da mesma região ou entre eles mesmo. Um homem com uma cicatriz horrível que racha sua cara ao meio mas da qual ele se orgulha. “Feita por uma mulher”. Outros dois, num salão de beleza comentando. “Deixem vir o Boko Haram… Que diferença vai fazer?” 

(Boko Haram é uma das maiores e mais violentas organizações terroristas da África)

Logo se percebe, então, a monstruosidade da vida de tais grupos. O gosto pelas atividades violentas, pelas mortes honrosas, pelo estupro como arma de dominação. A extorsão, o controle da população, a comunicação constante com o outro lado da fronteira com a Nigéria, por onde entram os galões contrabandeados de gasolina. 

Nesse ponto, remete a O Ato de Matar, documentário sobre assassinos e torturadores da ditadura militar da Indonésia. Feito a partir de conversas abertas, sinceras, sem julgamento, com criminosos horríveis.

Sem o primor estético e cinematográfico, entretanto, Zinder é muito menos pretensioso. Se contenta, e acerta nisso, a nos mostrar o lado mais humano de pessoas que a gente preferia pensar que não existem. Habitantes de lugares que a gente teima em fingir que não estão lá.

As imagens aéreas que mostram aquela terra arrasada e desértica no fim vêm pra compensar o filme. A câmera sobe. Foge. Para nos afastar do desconforto, do medo, da depressão de ser confrontado com isso. Mas também vem para completar uma rima visual potente. 

Que une as cicatrizes daquela terra explorada, esburacada e vazia de recursos extirpados com as cicatrizes literais fruto da violência de pares lutando um contra o outro.

Zinder, Níger, França, Alemanha, 2021
direção: Aïcha Macky
fotografia: Julien Bossé
montagem: Karen Benainous

Capitu e o Capítulo, Júlio Bressane, 2021

De alguma forma acaba se tornando a adaptação mais disruptiva experimental e ao mesmo tempo a mais natural e óbvia da obra de Machado de Assis. 

Despindo o filme de um drama tradicional, revirando a ideia de uma dramaturgia clássica,  partindo da própria estrutura em momentos que mal se conectam, Bressane captura a ideia central de Dom Casmurro. Uma dúvida. Uma traição “de schroedinger” que aconteceu e não aconteceu ao mesmo tempo. Mais importante: uma discussão sobre o que o texto quer dizer. 

Quando quebra a possibilidade de uma narrativa direta, o diretor concretiza a ideia da forma enganosa. Quando faz diálogos com uma mise-en-scène teatral onde um personagem jamais pousa os olhos em outro, cria esse ruído entre histórias, visões, pessoas que não se conectam.

Isso sem deixar de sintetizar tudo em cenas de aparente simplicidade ou que superficialmente parecem obtusas. Bentinho caminhando sem rumo pelos cenários. Apertando as cordas do violino enquanto o violinista continua o seu concerto. Notando as câmeras, quebrando a parede que nos separa do filme. Tão obcecado que extrapola os limites narrativos (afinal é ele quem narra a história no livro).

São decisões estéticas paradoxais. Que trazem para uma adaptação de um romance realista um aspecto surrealista. A própria separação do protagonista entre o Casmurro que conta e o Bentinho que vive aquele passado, aquela história, materializa isso muito bem. 

Enrique diaz encarna o narrador, explica, explana, filosofa, viaja. Ao mesmo tempo resume o filme em seu papel de forma direta. Porque é ele quem destaca o texto. Quem costura os atos, quem demonstra que o tema central da obra é a palavra escrita.

Em suma, o filme vai lidar muito com a literalização da obra. A concretização de conceitos, a demonstração mais pura, mais básica possível de versos imortais.

Os olhos de ressaca de Capitu, por exemplo. Uma das coisas mais marcantes do livro e que aqui são construídos a partir do close nos olhos de Mariana Ximenes. O som do oceano. E o corte para um mar revolto. 

Uma coisa que ficou na minha cabeça foi o bocado de cenas de bastidores que pontua os créditos finais. Por quê? O que um cineasta autoral tão rígido esteticamente busca com isso? O que ele quer evocar? Ele quer evocar algo quando nos lembra tão logo que aquilo é um filme? 

No fim, é como se até isso construa a ideia central de um filme que lida de forma tão simples com uma metalinguagem e uma experimentação tão completa. Uma série de cenas teatrais minimalistas costuradas que quer, por debaixo de tudo, repensar a arte narrativa nesses três estágios de literatura, teatro e cinema.

Capitu e o capítulo, Brasil, 2021
direção: Júlio Bressane
roteiro: Júlio Bressane
fotografia: Lucas Barbi
montagem: Rodrigo Lima
elenco: Mariana Ximenes, Enrique Diaz, Vladimir Brichta, Djin Sganzerla, Saulo Rodrigues

Conferência, Ivan I. Tverdovsky, 2021

Tverdovsky em nenhum momento supera a banalidade estética do cinema russo contemporâneo aqui. Ainda é um cinema clássico e de articulação pragmática da trama. Personagens isoladas em quadros e metaforicamente, conexões feitas pela montagem e sentimentos abstratos demonstrados de forma ilustrativa.

Ainda assim, é um filme que consegue se construir bem a partir dos caminhos opostos escolhidos por duas sobreviventes de uma tragédia. Enquanto a mulher mais jovem busca fugas bruscas, rompimentos violentos e abafamento do luto; a mais velha vai para o outro extremo.

Não basta aceitar. Não basta entender e confrontar figurativamente o que aconteceu. Ela precisa da catarse da encenação. Do retorno ao pior momento, de se colocar como vítima e, sem querer, como perpetradora de recriar a prisão em que ela foi colocada. 

O mais forte no filme, entretanto, menos tem a ver com o porquê de uma encarar a situação de forma diferente da outra. Mas da ideia de como confrontar. Do reviver. Da conferência memorial que dá título ao filme. Uma homenagem às vítimas de um atentado real e violento que matou centenas de pessoas direta e indiretamente feita a partir de uma reconstituição. 

Nesse sentido, o melhor é como a obra por si se torna um memorial. Uma reconstituição que consegue evocar o peso daquilo não pelo caminho fácil de filmar a tragédia encenada, mas de encenar uma encenação. Como se adicionasse camadas para que o choque venha mais amortecido. 

O que vemos, então, é um horror abafado. Abafado pelas camadas de cinema que se fazem entre nós e o ocorrido.

Konferentsiya, Rússia, 2021
direção: Ivan Tverdovskiy
roteiro: Ivan Tverdovskiy
fotografia: Fedor Glazachev
montagem: Ivan Tverdovskiy
elenco: Natalya Pavlenkova Olga Lapshina Kseniya Zueva Oleg Feoktistov Yan Tsapnik Aleksandr Semchev Viktoriya Verberg Anna Galinova Natalya Potapova Igor Vorobyev Elena Nesterova Natalya Batrak Natalya Grinshpun Marina Zubanova Anna Slyusareva Sergey Petrov Philip Avdeev Roman Shmakov Natalya Tsvetkova Alexey Mishakov Yuliya Khamitova Aleksandr Golubkov Alexandr Zlatopolsky Andrey Larin Marina Antonova Anton Dolbusin Oleg Bilik Arina Marakulina

Bia mais um, Wellington Sari, 2021

Tem uma clareza muito aparente nas intenções do diretor. Não porque é simples, porque é super eficaz, mas ele deixa escapar na forma como ele estrutura tudo uma certa banalidade muito utilitária do que ele quer aqui. Até rasa. 

O menino e a menina, os contrastes do nerd viciado em física quântica e a estudante de arte. Os contrastes na conexão entre artes plásticas e videoarte. O encontro destes mundos, a ideia da cronologia bagunçada e o romance que parece ciente de carregar um cinema diferentão e revolucionário. Mas que no fundo não é tanto assim.

É muito frio. Muito cafona quando precisa da dramaturgia mais direta. Muito óbvio quando expõe as muitas telas que a cercam. Dos livros de arte impressos ao playstation 4 onde ela joga um videogame de aventura. 

É como se as ideias fossem mais evidentes que as sensações que ele busca no fim das contas. Muito por conta do mais básico. Mesmo que ele seja um filme feito de coisas não básicas ou que tentem extrapolar o módico.

Bia mais um, Brasil, 2021
direção: Wellington Sari
roteiro: Wellington Sari
fotografia: André Senna
montagem: Tomás Von Der Osten
elenco: Gabrielle Pizzato, Gustavo Piaskoski

 O sonho do inútil, José Marques de Carvalho Jr., 2021

O sonho do inútil vai se desdobrando aos poucos. Talvez seja diferente pra quem conhecia os vídeos desse grupo nos meados dos anos 2000s na internet. Copiando Jackass, filmando brincadeiras perigosas, se machucando em prol do entretenimento e de uma ideia tola de que o humor precisa de um alvo. 

Pra quem não conhece, entretanto. Para quem não tem relação nenhuma com essas pessoas, é muito curioso. Faz com que a gente se pergunte o tempo todo se tá rindo deles ou com eles. Mais que isso, para além das piadas físicas, traz uma rejeição àquele comportamento meio que direcionada à falta de noção como um todo do personagem no centro de tudo. 

O cara indiretamente se compara com Buster Keaton? Ele está falando sério? É um personagem?

Mais além na estética meio tosca, ele opta por caminhos óbvios tipo o preto e branco como código dramático de sua depressão que surgiu anos depois desse auge de celebridades da internet. 

De alguma forma, entretanto. Todas essas indefinições, todas essas limitações, todas essas arestas que parecem mal acabadas vão sendo ressignificadas com o aprofundamento das histórias do grupo. Vão entrando os outros temas. Violência, tráfico de drogas, vida de periferia, marginalidade forçada por uma cidade fria e brutal.

É uma reviravolta que não vem como uma quebra  mas aos poucos. Captando nossa atenção para o que já estava lá o tempo todo. Um grupo de amigos que encontrou um no outro, na vadiagem e numa exploração do ócio uma escapatória para um contexto que levaria a caminhos muito mais violentos, não fosse uma câmera, o acesso à internet e uma amizade que parece sustentar tudo.

Lembra aqui Minding the Gap, filme de Bing Liu sobre um grupo de skatistas que foi lançado ano passado ou no anterior. Começa com um bocado de filmagens de um grupo de jovens sem rumo e se revela algo muito mais denso no final das contas. 

O sonho do inútil repete isso mas tem ainda o lado mais cruel das fatalidades da violência brasileira. Pesa muito por isso. Faz de sobreviventes, que em qualquer outro lugar seriam tidos como histórias pesadas de superação, um grupo que conseguiu pôr a cabeça no lugar. Fazendo parecer nada demais. Embora seja.

A obra opera numa mescla do simbolismo de Pagliacci, o palhaço triste da ópera, e de Jackass, um grupo norte-americano dos anos 2000 que extrapola violentamente os limites do humor físico. O que sai disso é um dos filmes mais singelos e mais dolorosamente sinceros sobre a vida de periferia das nossas maiores cidades. Encanta pela simplicidade da estética e pelo que essa crueza e essa brutalidade representam no fundo.

O sonho do inútil, Brasil, 2021
direção: José Marques de Carvalho Jr
roteiro: José Marques de Carvalho Jr
fotografia: José Marques de Carvalho Jr
montagem: José Marques de Carvalho Jr
elenco: Douglas Santos, Aluã Topeira, Daniel Nascimento, Diego Ald

A cidade dos abismos, Priscyla Bettim & Renato Coelho, 2021

É um dos filmes recentes que melhor integra um experimentalismo da forma, da montagem, da construção fílmica, a uma exploração de gênero. Um film noir paulistano à véspera do natal. Desfragmentado, contemporâneo, marginal. 

Feito a partir de uma base de trama. Um fiozinho de enredo que vai ser usado tanto como desculpa para exploração da marginalidade das personagens quanto para o sentimento ruim que se concretiza fundamentado nisso.

É uma obra que demora um pouco para se construir e mostrar todos os seus lados, mas que desde a primeira cena, com duas mulheres subindo nas sombras, uma escadaria macabra na noite de Natal já vai evocando essa simbologia tão clara das criaturas das sombras. 

As personagens que circulam por aqui, assim como quem elas encontram pelo caminho, são caracterizadas por um olhar vazio. Por uma busca sei lá do quê que fica interiorizada. As prostitutas que trabalham e que juntam até o último centavo para procedimentos que arriscam suas vidas. O bartender que parece preso num limbo de existência. Como se só pudesse existir naquele balcão, naquele bar. Os monstros surgem pelo caminho predando o que eles encontram.

O minimalismo de trama contribui para um ar quase místico da construção de uma São Paulo enquanto local amaldiçoado. O enredo lida com personagens que se metem numa encrenca mas a estrutura faz do ato de circular por aquele ambiente hostil uma epopéia. 

E nesse sentido mesmo o texto e a construção do roteiro lidam com esotérico e o enigmático. Não por acaso o bar, cujo luminoso é sempre foco da câmera, se chama Xangô. O orixá justiceiro. 

Mas além das referências diretas, a própria cosmologia do filme cria uma lógica de circulação naqueles locais. O banheiro como um refúgio, por exemplo.

A resolução, no fim das contas, pode soar insatisfatória para algumas pessoas. Não porque a trama segue caminhos errados, mas porque é onde o filme se desfragmenta completamente e se remonta antes do fim. 

Menos importam então os personagens individuais e mais as sensações e os sentimentos abstratos que a obra quer materializar. É como se um dos abismos daquela cidade tivesse nos engolido. Como se nós estivéssemos perdidos na existência atormentada junto com elas.

A cidade dos abismos, Brasil, 2021
direção: Priscyla Bettim, Renato Coelho
roteiro: Priscyla Bettim
fotografia: Rodrigo Pannacci
montagem: Caio Lazaneo
elenco: Verónica Valenttino, Sofia Riccardi, Carolina Castanho, Guylain Mukendi

Rio doce, Fellipe Fernandes, 2021

Por mais que Fellipe Fernandes se esforce para trazer alguma identidade usando muito do cenário das casas e de inserções visuais no primeiro ato, a realidade é que Rio Doce sofre por um enredo que parece querer surfar uma onda que já tem mais de dez anos. De dramas urbanos brasileiros sobre classe. 

Pensando em trama, aliás, o que o longa consegue de melhor nesse aspecto é a falta de uma resolução fechada para uma história que desemboca num momento em que um personagem escolher entre dois caminhos.

Não faltam no roteiro elementos com algum potencial. Uma cidade como universo diminuto da estratificação social; um homem que circula entre dois lados de uma classe que, no fundo, é toda pobre; cenas que conseguem resumir toda a situação sem precisar expor nada pelos diálogos. 

(como quando ele, num almoço com a ‘família rica’, acaba se conectando muito mais com a empregada do que com as próprias irmãs)

A cola de tudo isso, entretanto, se traduz numa dramaturgia morna. Fernandes enquanto diretor (ele também escreve o longa) não extrapola muito essa ideia de ilustrar um roteiro redondinho (ou quadradinho?). Ele se esforça para tirar o máximo do seu elenco (o que gera resultados, principalmente pensando no protagonista) para criar algo a partir de uma construção cênica bem rudimentar.

Dá pra notar, por exemplo, uma intencionalidade no uso dos cenários como comentário destas classes diferentes expostas no filme e até na construção dos personagens. A família rica que recebe caixas de lojas caras com certa frequência, enquanto o apartamento sem luz dele tem rastros de uma criação politizada mesmo na pobreza. Um pôster de Tupac Shakur, um ímã de geladeira de um partido de esquerda etc. 

No final, o filme não consegue extrapolar o meio do caminho no qual ele fica preso, entretanto. É eficiente, bem feito. Satisfatório. Mas nada muito mais que isso.

Rio doce, Brasil, 2021
direção: Fellipe Fernandes
roteiro: Fellipe Fernandes
fotografia: Pedro Sotero
montagem: Quentin Delaroche
elenco: Okado do Canal, Cíntia Lima, Cláudia Santos, Carlos Francisco, Nash Laila, Thassia Cavalcanti, Amanda Gabriel

O bom cinema, Eugênio Puppo, 2021

Talvez isso deponha contra o filme por si, mas o bom cinema me fez mais pensar nesse formato específico de documentário sobre cinema do que no tema central: cinema marginal. 

Um bocado de imagens de diversos tempos. Costuradas, integradas tematicamente ou formalmente, construindo um tipo de mosaico. Imagens de um tipo específico de filme e dos realizadores responsáveis em situações diversas falando desse tipo de filme. Parece moderno de alguma forma. Soa como algo típico da contemporaneidade.

Só que se a gente parar pra pensar é a coisa mais eficaz, mais objetiva e direta possível para se tratar de um gênero, um movimento, um estilo. Qual melhor forma de descrever cinema de maneira audiovisual do que deixando os filmes falarem por si?

Pensando nisso, entretanto, o esforço de Eugênio Puppo para contar essa história de um cinema revolucionário esteticamente como foi o cinema marginal brasileiro parece que fica um pouco aquém de projetos semelhantes. Penso em Cinema novo, de Eryk Rocha, claro. Mas mais que isso, pensei em Histórias que nosso cinema não contava, de Fernanda Pessoa.

Parece que é uma questão de escolha, a princípio. Se a ideia é criar um filme mosaico para representar o estilo, a qualidade vai depender de quão profundo e diverso você é na escolha de quais filmes, quais vídeos, quais fragmentos usar nessa montagem. Uma visão equivocada.

O que importa mais, afinal, é que exista uma ideia no centro de tudo. Um porquê do projeto. Uma unidade que pode ser pregressa ou que pode resultar do acaso. 

Em Histórias que nosso cinema não contavam, a diretora fazia um retrato de como era nosso cinema numa época em que só a putaria conseguiria carregar mensagens através dos departamentos de censura da ditadura. Em Cinema Novo, Rocha traz um peso pessoal e uma ideia de diário para o retrato do que foi a nossa “nouvelle vague”. 

Aqui, entretanto, não é que Puppo não tenha um pensamento específico sobre o cinema marginal brasileiro. Não é que ele não o respeite, não o entenda. Mas o aspecto protocolar da construção narrativa do documentário nunca supera a questão da curiosidade. De explicar o que é, como foi, onde surgiu e o que significou. 

Como reportagem, como peça educacional, até funciona. Mas como obra de arte não consigo decidir se ele faz jus ao seu tema. 

De qualquer forma, fico curioso para ver uma sessão que junte esses três documentários num retrato mais ou menos amplo do nosso cinema dos anos 60 ao final dos 80.

O bom cinema, Brasil, 2021
direção: Eugenio Puppo
fotogragia: Daniel Tancredi
montagem: Eugenio Puppo

Um céu tão nublado, Álvaro F. Pulpeiro, 2021

Não sei se por não querer escapar de limites estéticos bem estabelecidos ou por não querer  mexer demais no vespeiro que é a Venezuela contemporânea enquanto tema, Pulpeiro vai muito bem quando faz de seu filme um retrato de uma sensação, uma materialização de coisas intangíveis, em vez de tentar explicar qualquer coisa. 

É cansativo. Não tem trama, não tem explicação. A narração que existe vem em forma de cartas enviadas ou vindas de outros países. Os fragmentos da história que se desdobra contemporaneamente vem de pedaços de programa de rádio. 

Simplificando, é uma obra audiovisual que fica entre o cinema e a videoarte. Que é feita de pedaços de imagens da Venezuela e de países da fronteira. Imagens estas que retratam um país não enquanto divisão política do globo ou enquanto uma população reunida, mas enquanto uma ideia. Para tanto, o que vemos são pessoas a esmo, galões de gasolina, carros em estradas sem fim, navios petroleiros e plataformas marítimas de extração.

Parece solto, sem foco, mas o fato é que o diretor atinge na mosca seus objetivos. Pela simbologia que o filme cria destes signos e pela forma da captura. A gente vê muitos pedaços, muitas cenas no ocaso do fim da tarde ou início da manhã. Muitos pedaços de um céu nublado como o título explicita. Coisas que constroem muito para o estado de uma nação que vive um pesadelo de isolamento que veio depois de um sonho de revolução. 

Um país nublado pela falta de conhecimento do mundo sobre o que ocorre lá dentro, pelos impulsos tirânicos de um presidente que busca proteger um legado de luta. Uma quase literal cortina de fumaça inescapável para qualquer um envolvido. 

As filmagens à contraluz dos habitantes e das construções materializam outra metáfora, a de uma silhueta de um país. Uma nação intangível que existe num mundo palpável, como uma sombra concreta, algo que fica entre realidades e que nunca nos mostra sua face ofuscada pelo fenômeno ótico. 

O que coroa essa ideia que de tão abstrata pode escapar por entre os dedos de quem vê é a escolha destas imagens. Um homem abanando um bolo enorme de cédulas de bolívares na beira da estrada, uma moeda tão desvalorizada que a quantidade absurda não vale muita coisa; um carro dirigindo sem rumo; galões plásticos de gasolina sendo lançados de um caminhão para o outro nas vias desérticas de contrabando.

Sob aquele céu tomado de nuvens  que o diretor consegue capturar de alguma forma sempre debaixo para cima. Como se o lugar estivesse sempre à mercê de algo maior, uma pressão superior. 

É como se o filme quisesse esfregar o mais básico na nossa cara. A grande razão por trás das guerras civis e crises políticas e ditaduras. No fim é tudo sobre aquela terra, sobre aquele petróleo que é uma bênção e uma maldição para aquele povo.

Un cielo tan turbio, Venezuela, Colômbia, Espanha, Inglaterra, 2021
direção: Álvaro F. Pulpeiro
fotografia: Mauricio Reyes Serrano, Álvaro F. Pulpeiro
montagem: Martín Amézaga

Rolê: Histórias dos rolezinhos, Vladimir Seixas, 2021

Com a quantidade de temas que Seixas aborda num filme que parte de um movimento específico de 2013, é surpreendente como Rolê consiga se conter num documentário eficaz e que não parece (muito) perdido nos seus objetivos. Era uma questão de escolha: se concentrar no aspecto histórico específico da ocupação dos shoppings pela população preta e pobre ou usar isso como trampolim para se inserir num contexto cultural?

Seguir a segunda opção se paga em muitos momentos. Cria um eco e uma força de se inserir num movimento estético de muitas obras de arte do mundo todo que discutem a questão racial sob novos olhares. Trazendo à tona problemas antigos e lutando pra que tudo não vá pra baixo do tapete de novo. 

Nesse sentido, o filme parece muito consciente de que quer ser uma obra temporal. Retrato de um momento específico não só a partir desse tema mas a partir da ideia de se tornar mais uma voz da comunidade preta global. (ainda que o diretor seja um homem branco) 

O espaço que o filme dá a artistas traz essa legitimidade. Liberta o filme de se tornar uma peça de linguagem quase publicitária quando dá tempo para as expressões. 

O que ele almeja é ser um eco de um zeitgeist num nicho e alcança isso com certo sucesso.

O que se perde na escolha, entretanto, é uma exploração mais profunda do conceito central dos rolês. Uma discussão menos global e mais objetiva do que se tratava aquele tipo de protesto. Atos que perturbavam o status quo pela simples ideia de ir e vir. Ocupar espaços. Espaços de consumo.

Pessoas que se reafirmaram cidadãos a partir disso e, indiretamente, reforçam uma lógica de que só é gente quem caminha por certos lugares e quem consome certas coisas. Expõe fibras estruturais de uma sociedade que é feita para ser divisiva e opera numa lógica que assegura essa partição.

Coisas que ficam de fora e que, fossem mais discutidas, fariam desse filme muito mais grandioso.

Rolê – Histórias dos Rolezinhos, Brasil, 2021
direção: Vladimir Seixas
roteiro: Vladimir Seixas
fotografia: Léo Bittencourt, Vladimir Seixas
montagem: Vladimir Seixas
elenco: Thayná Trindade, Jefferson Luis , Priscila Rezende

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