Uma máxima comum não só para o cinema mas para qualquer arte é que cada obra é um retrato da época em que ela é lançada. No caso dos filmes de 007 não só eles materializam um contexto cultural e cinematográfico como acabam articulando aspectos geopolíticos e, de quebra, se tornando respostas para o filme anterior do 007.

O que Goldeneye tem de mais impressionante é, então, a capacidade que Campbell tem de responder satisfatoriamente a tudo isso. Um mundo que passava pelo retumbante fim da União Soviética, da Guerra Fria e da própria ideia de espionagem; um reequilíbrio de uma nova fase do James Bond depois de uma era descabidamente séria e sisuda de Timothy Dalton; uma adequação da franquia à ação, à tecnologia e a demandas culturais dos 1990s. Seis anos depois do anterior. 

O que incomoda é o como os resultados não conseguem ser muito mais que adequados nesse malabarismo que o projeto impõe. Campbell constrói os set pieces de perseguição, de embate, com a sua força classuda e realista habitual. Dirige bem as relações entre os atores, solidifica um novo universo moderno para o 007.

A cereja do bolo de Goldeneye é o subtexto da relação da franquia com as mulheres. Não só M agora é uma mulher e tem o discurso certo pra isso como as próprias Bond Girls da vez concretizam o que quer que seja que estava acontecendo com a ideia de “mulheres fortes” no cinema da época: uma mulher super inteligente e outra uma versão super física e super literal da femme fatale. Principalmente em se tratando do aspecto “fatal”. 

Sei que não é nada demais, mas algumas coisas me impressionam como os efeitos do satélite assassino que combina uma materialidade de efeitos práticos com um engatinhar do CGI. Mas o mais impressionante mesmo é a grande perseguição de tanque na Rússia que, embora possa parecer enfadonha vista hoje, se torna o grande auge da ação aqui.

Brosnan é a resposta perfeita a Dalton. Recuperando um charme e uma irreverência sem cair muito na caricatura que Roger Moore se tornou no final de sua era. De todos os intérpretes, é um dos que melhor equilibra esses dois lados. Isso enquanto traz de volta junto da concepção de Martin Campbell muitos dos signos clássicos da série. A mesa de Poker; o carro; o flerte com Moneypenny, o champagne, o martini etc.

O que envelheceu mal é também o que deixa no filme um ar muito responsivo a tendências da época. A caricatura do Hacker é o ponto mais baixo aqui. Mas Campbell aprendeu essa lição 10 anos depois com Casino Royale. 

A “sorte” curiosamente aqui é que, diferente da era Craig que viria depois, o filme de estreia de Brosnan não passa muito do “decente” mas pelo menos não se tornou uma sombra e uma grande promessa para todos os outros. Coisa que vista com a distância do tempo acaba sendo um ponto positivo por tirar dos ombros das continuações uma pressão imensa.

Goldeneye, Inglaterra, 1995
direção: Martin Campbell
roteiro: Michael France Jeffrey Caine Bruce Feirstein
fotografia: Phil Meheux
montagem: Terry Rawlings
elenco: Pierce Brosnan Izabella Scorupco Famke Janssen Sean Bean Joe Don Baker Judi Dench Robbie Coltrane Tchéky Karyo Gottfried John Alan Cumming Desmond Llewelyn Samantha Bond Michael Kitchen Serena Gordon Simon Kunz Pavel Douglas Olivier Lajous Billy J. Mitchell Constantine Gregory Minnie Driver Michelle Arthur Ravil Isyanov Vladimir Milanovich Trevor Byfield Peter Majer Kate Gayson Simone Bechtel

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s