Noyce não parece ter muita noção do que quer aqui. Tem muita trama e ao mesmo tempo tem estilo demais para uma narrativa clássica. Isso enquanto tem clichê que sobra e não estilização o suficiente se a ideia for de fazer algo maneirista ou mais esteta. A lógica, no fim, parece a de se apoiar em dois astros gigantescos numa relação que nem sempre convence mas que surpreendentemente funciona no desenrolar. 

Cansei de falar o quão magnético é Denzel fazendo qualquer coisa, então prefiro ponderar sobre a exploração da imagem de Jolie. 

O romance desconjuntado e a sua expressão sempre à beira do choro parece coisa que nem funciona direito na história tola da trama mas que é ao mesmo tempo o que cria um laço de empatia pela protagonista. Que não é nenhuma Clarice Sterling de Jodie Foster mas que carrega a ideia da cadete que é jogada numa investigação numa relação meio abusiva de trabalho mas que parece querer ser provocativa em questão de romance. 

É um filme que esclarece demais suas referências comerciais. Com um teor um pouco de arquivo-x e ao mesmo tempo com uma exploração do serial killer que claramente responde à popularidade de filmes como Seven e Silêncio dos Inocentes. 

Por outro lado, pensando não no que vinha antes mas no que viria a seguir. É um filme apaixonado demais pela ideia do procedimento científico da investigação. A ponto de fazer o técnico laboratorial de Luis Guzmán se tornar um coadjuvante importante e ao mesmo tempo de falar, falar, mostrar, repetir, coisas que pra quem viu CSI não são novidade nenhuma. Tipo usar luvas na cena do crime, fotografar tudo e ensacar evidências.

A trama parece muito própria para o tipo de literatura barata que serve como base aqui mas tematicamente nunca avança de verdade. Embora acene para coisas como a relação entre o passado novaiorquino simbólico e coisa assim. Como se os ossos do título fossem metáforas para os ossos da metrópole mais emblemática de todos os tempos. Mas nada que se execute para além da apresentação de ideias. 

Tudo é muito brega, no fim das contas. Não abraçando o lado mais divertido de ação de folhetim e nem ponderando de forma profunda o suficiente para causar algo. 

O próprio Phillip Noyce não gosta muito do filme. Diz que o percebe demais como projeto de encomenda que responde ao mercado. Mas ainda assim é bom ver que, como bom operário que leva a sério o que faz, ele consegue demonstrar um completo domínio narrativo mesmo que artisticamente ele não esteja completamente interessado. 

O suspense se mantém, o filme se desenrola suave e, falando do ferramental estético, ele consegue até integrar bem ângulos tortos que imitam a visão do protagonista preso à maca mas que ao mesmo tempo trazem à tona uma estranheza e um desassossego. 

Seria um grande filme se assumisse o seu lado artificial de forma mais frontal. Com a profundidade de campo, as transições chamativas da câmera flutuam por entre o trânsito e mesmo a ação truncada do embate final. 

Porque a verdade é que, fora o casal principal, nenhum outro personagem e nenhum desenrolar de enredo tem estofo o suficiente para tornar tudo isso em algo sério e mais grave.

Comparando com Seven, de 3, 4 anos antes. Será que aqui ninguém percebeu o quanto de tempo que o filme do Fincher gastava para construir o assassino? Aqui parece que ele é esquecido assim que os créditos começam a rodar.

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the bone collector, eua, 1999
direção: phillip noyce
roteiro: jeffrey deaver, jeremy lacone
fotografia: dean semler
montagem: william hoy
elenco: denzel washington angelina jolie queen latifah michael rooker michael mcglone luis guzmán leland orser john benjamin hickey bobby cannavale ed o’neill richard zeman olivia birkelund gary swanson james bulleit frank fontaine zena grey desmond campbell peter michael dillon ted whittall andy bradshaw steve adams christian veliz mercedes gómez mary c. hammett amanda gay larry day burke lawrence terry simpson eric davis arthur holden yahsmin daviault keenan macwilliam david warshofsky mateo gómez jonathan stark fulvio cecere hal sherman russell yuen jean-marc bisson christopher bregman sonya biddle

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