O capítulo de Slade da saga é bastante ingrato ao se considerar a história como um todo porque ao mesmo tempo em que ele ensaia um lado épico que nunca viria de verdade até mais tarde no desenrolar da história, ele também renega muito do que veio antes. Pensando que Crepúsculo surge como um romance conservador e que o que há de melhor no único filme perto de ser razoável da saga, que é o primeiro, é a relação adolescente. Eclipse faz pouco disso. Como se ridicularizasse os próprios fundamentos.

Aqui Bella já é parte da família, já escolheu entre o lobisomem e o vampiro e, mesmo que Kristen Stewart fosse uma mulher de 20 anos que parecia ter 20 anos, estava prestes a se formar no ensino médio. Então em termos de enredo não só o que se desenrola num certo suspense parece um ensaio do desfecho, mas também a própria trama urbana de um “exército de vampiros” e uma vilã fora de controle soam como um episódio daqueles que vem antes do fim da temporada para encher linguiça e preparar terreno. Ajudaria se o filme fosse fundo nessa preparação e assumisse seu lado épico (o que ele não faz). 

Ajudaria se ele não tivesse abandonado o lado mais pueril e singelo do romance do casal. O que ele também não faz, embora tenha como personagem central uma adolescente um tanto cínica que faz pouco disso. O que talvez seja a questão problemática central dessa história em qualquer mídia: a de ser um romance melodramático desapaixonado. Muito por causa da frieza dos personagens. 

O amor intenso e a paixão existem lá, de alguma forma, mas o comportamento de quem deveria ser veículo para essa intensidade é de apatia. O que se traduz na dramaturgia para algo que soa como um amadorismo. Como uma peça escolar onde adolescentes tímidos têm de fingir gostar um do outro enquanto lidam internamente com as confusões de amadurecimento. 

Movimento que, querendo ou não, Catherine Hardwicke combateu no primeiro filme quando trouxe à tona um tom de romance colegial que carrega muito a relação de Bella, Edward e de Jacob como o terceiro eixo desse triângulo. Coisa que até mesmo Chris Weitz manteve enquanto construiu o seu Lua Nova ao redor da cena emblemática da protagonista protegendo o amado quando se joga em cima dele numa cidade europeia. 

Aqui, fora a cena de abertura que serve mais de estabelecimento do casal do que qualquer outra coisa (aquela deles rolando em um campo de lavanda), todo o movimento parece ser de uma junção de peças que não se conectam tão bem uma à outra. Os flashbacks parecem interessantes na ideia e até no visual que traz uma quebra, mas tudo é meio burocrático e distante. O filme parece estar eternamente na busca de um tema. Nos preparando para um embate que parece, no fim, uma briga no quintal gramado com uma pedra. 

Isso enquanto paralelamente o filme quer muito que a gente saiba que os vampiros recém-transformados são muito mais poderosos que os antigos mas falha em nos mostrar isso de alguma forma convincente. O que nem é dos maiores problemas de um filme que, apesar de tudo, não é das piores coisas que David Slade já fez.A saga crepúsculo: eclipse, David Slade, 2010

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the twilight saga: eclipse, eua, 2010
direção: david slade
roteiro: melissa rosenberg stephenie meyer
fotografia: javier aguirresarobe
montagem: art jones nancy richardson
elenco: kristen stewart robert pattinson taylor lautner ashley greene peter facinelli billy burke elizabeth reaser nikki reed kellan lutz jackson rathbone gil birmingham anna kendrick michael welch christian serratos bryce dallas howard justin chon xavier samuel dakota fanning sarah clarke cameron bright booboo stewart julia jones chaske spencer jodelle ferland tyson houseman alex meraz kiowa gordon bronson pelletier tinsel korey catalina sandino moreno kirsten zien jack huston daniel cudmore charlie bewley leah gibson alex rice ben geldreich paul jarrett iris quinn byron chief-moon mariel belanger cainan wiebe william belleau justin rain monique ganderton dawn chubai

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