Perde a direção de Leterrier, perde boa parte da criatividade da ação, perde uma motivação crível e que nos  convença. Carga Explosiva 3 parece a volta do pêndulo da franquia. Algo como uma resposta a algo que (provavelmente?) foi rejeitado na continuação. 

Então Frank está de volta à Europa e de novo carregando uma moça desconfortavelmente mais jovem que ele que se torna par romântico. E mesmo que fosse da mesma idade, a falta de química é completamente palpável. Olivier Megaton, que substitui o diretor que decidiu fazer O Incrível Hulk e dar o pontapé inicial no MCU, não se mostrou um bom diretor desde então e, mesmo antes, mesmo sem ver, duvido que tenha sido. 

Se o primeiro Carga Explosiva demonstra um fortalecimento da era do filme francês de ação depois do reinado de Hong Kong, este é um daqueles que mostra um enfraquecimento dessa lógica. Talvez em prol de um retorno do cinema norte-americano de dublês que como sempre consome o externo para mercantilizar internamente. (falo sem julgamento de valores aqui)

Tentando destrinchar a obra a partir de elementos, a trama se afunda em uma espiralação desnecessariamente complicada que busca dar ao mercenário de novo ares de herói que salva o mundo só andando de carro e descendo a porrada em meio mundo; a ação quando é boa mal repete o que o dois alcança e quando é ruim, acaba se tornando metáfora para o vasto vazio de ideias que esse filme acaba se tornando. E se for pensar em elenco… Já viu como anda a carreira da Natalya Rudakova?

Vulgar dependendo da situação é até elogio, então acho que o que vale dizer sobre o tom cômico e dramático dessa relação que o filme usa como base entre os dois é que ele é completamente obtuso. Olhando a partir do cenário pudico dos blockbusters atuais até dá pra pensar no mérito do casal transante no filme de ação, hoje em dia. Mas a realidade aqui é tão completamente tosca que o resultado se torna mais patético do que sensual em qualquer situação.

Ela é bonita, ele é bonito, mas nada que ocorre entre os dois parece não ser forçado. Até por que, de novo, ela parece que ainda nem pode entrar em um bar sem identidade e ele já passava dos 40. O que já foi um padrão mas, ainda bem, mais e mais se torna um traço desconfortável do cinema passado.

A ação aqui, como no segundo, se volta mais para o carro. Como se para compensar e dizer que esse não é um filme de um lutador mas de um motorista, isso ganha um aspecto central com um dispositivo que não permite que eles se afastem do veículo. E as duas cenas de Jason Statham contra o mundo valem porque, no fim, é isso que ele faz de melhor. A pose, a atitude, a graciosidade de como ele é coreografado como alguém que gosta da luta e sabe que vai vencer. 

Nada muito criativo, nada que supere os momentos de porradaria do segundo filme, mas ainda assim sequências dignas de nota e melhores que a ação de qualquer coisa que opere sob o monopólio da Disney atualmente. 

(vale citar também a cena divertida da bicicleta quando ele perde o carro por um instante)

A ideia de que o sedan grande e preto se torne a base fundamental do longa pode até ter uma boa intenção de voltar às raízes, mas a execução disso comete o mesmo erro do primeiro, que é não pensar muito bem em como um carro pode ser bem ou mal utilizado cinematograficamente. 

No único momento de perseguição, uma Mercedes segue essa velocidade toda e fica quase quase encostando no carro do protagonista numa espécie de dança. O que faz lembrar do segundo Missão Impossível, do cinema de Woo e… adivinha quem sai perdendo.

Tem muita velocidade, tem muita relação com a trama (o dispositivo) e tem os ares icônicos que os anos deram a essa série. Mas não existe muita noção de como concretizar as coisas plasticamente. De pensar em cenário, em enquadramento, em montagem, no peso dos elementos. Então boa parte do que vemos em tela é o plano e contra-plano da discussão dos dois nos bancos da frente, os impulsos de pirralha dela de mexer no aparelho de som e um vazio. Muito vazio. Estradas longas, cercadas por florestas, com asfaltos perfeitos. Como um passeio. Bom pra dormir.  

Com tantos Velozes e Furiosos, com as versões francesas e a americana de Táxi, com Bad Boys 2, Matrix Reloaded, 007, A identidade e a Supremacia Bourne nos anos anteriores, é imperdoável tratar as cenas de rua de um filme de ação sobre um super motorista dessa forma.

transporter 3, eua, frança, 2008
direção: olivier megaton
roteiro: luc besson robert mark kamen
fotografia: giovani fiore coltellacci
montagem: carlo rizzo camille delamare
elenco: jason statham natalya rudakova françois berléand robert knepper jeroen krabbé alex kobold david atrakchi yann sundberg ériq ebouaney david kammenos silvio simac oscar relier timo dierkes igor koumpan paul barrett elef zack katia tchenko michel neugarten farid elouardi mike powers philippe maymat franck neel jean-luc boucherot tonio descanvelle stephen croce martial bezot stephen shagov julien muller arnaud gibey guillaume nail denis braccini stefo linard aline stinus kait tenison fabien aïssa busetta venugopal balakrishnan sebastien vandenberghe semmy schilt eric moreau

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s