Parece que custa a começar a cinebiografia que coroa o filme dramaticamente. O momento em que vemos o humano debaixo daquilo tudo entregando suas últimas forças para fazer o que mais ama no seu ápice artístico mas preso pelas circunstâncias que sustentam sua liberdade de expressão. De certa forma, é só quando se vê sob um holofote frente a um microfone que o personagem de Austin Butler consegue dar toda a vazão ao que guarda dentro de si enquanto opera sua persona comercial e circula no labirinto em espiral que foi construído ao seu redor.

Custa começar porque o “aquilo tudo” do primeiro parágrafo se refere à corrida de Baz Luhrmann em materializar em mais de uma hora e meia uma ópera rock acelerada que tenta invocar todos os lados desse garoto. Suas raízes na música preta vinda do lugar onde ele morava. A exploração executiva e a mercantilização do seu talento. Sua voz incomparável e seus anseios angustiados. 

O cineasta dá um jeito de nos mostrar o personagem dramático no turbilhão de montagens exageradas e telas divididas, figurinos e objetos sendo jogados de uma tela a outra como se o cinema comum não pudesse contê-lo. Também nos apresenta à sua música e a complexidade que existe ao redor desse estilo e também aos muitos rostos do ser mitológico que carregava tudo às massas. Elvis Aaron Presley, de Memphis; Elvis Presley, o cantor incomparável que roubou fragmentos do existente no Blues e no Country para criar ao lado de uma geração uma música nunca vista antes; e Elvis, o ídolo, o nome, a força cultural. 

É como se o filme invertesse a pirâmide típica da cinebiografia de agora de nos levar degrau por degrau ao estrelato da pessoa em questão. Escancarando de cara tudo o que há pra se saber sobre eles. O aspecto videoclipado que faz dessa primeira parte algo como um trailer muito longo tem um ritmo de aceleração que traduz a velocidade daquela cultura americana dos 1950s e 1960s. 

Ao mesmo tempo que sabe curtir a musicalidade disso sem necessariamente se apoiar numa masturbação da obra de Elvis (como fez Bohemian Rhapsody com Queen). Fugindo da artificialidade do filme de Mercury em simplesmente inserir as faixas ao longo da narrativa sofrida. Coisa que Rocketman até fez muito melhor quando tornou essa videoclipagem como parte da contação da história de Elton John mas que ainda assim soava apelativo. 

Aqui, as versões de sucessos como Suspicious Minds, Hound Dog, Power of Love, In the Ghetto etc vêm como fragmentos ecoados ao fundo. Como ilustração de certos momentos que se perdem entre o vozerio e o barulho da intensidade da vida dele. O que paradoxalmente nos faz dar muito mais valor a cada uma delas e a cada precioso momento em que elas surgem. Como o momento em que um Elvis doente e fragilizado se escora num piano para cantar Unchained Melody.

(enquanto o filme ainda tira uma força musical da remixagem das músicas dele e das que o inspiraram como o que Doja Cat faz com Hound Dog em ‘Vegas’ ou a espécie de ‘eulogia’ de Eminem e CeeLo Green em ‘The King and I’ )

O que tem no caminho disso tudo e que apesar de não ser injustificável é meio difícil de entender completamente em termos dramáticos é o protagonista real que se atravessa na nossa frente: Coronel Tom Parker. O personagem de um Tom Hanks sob a maquiagem exagerada do empresário que controlava Elvis. 

É o mais questionável em termos estéticos e de trama ao relegar o filme todo à sua perspectiva. Tanto porque nos afasta do centro dramático do músico explorado no meio da história quanto porque ele acaba soando como uma racionalização desnecessária do estilismo do longa. 

Um agente controlador não só na vida do cantor mas no papel de domesticar a obra. Trazer informações sólidas, datas, explicações do porque e como a indústria musical foi construída ao redor de Presley. Embora, pensando num traço de construção do personagem, há de se reconhecer o aspecto quase ousado de relegar a contação da história ao vilão dela em se tratando de uma biografia de um músico contemporâneo. 

(coisa que lembra um pouco a obra prima de Milos Forman: Amadeus)

Longe de revolucionar muita coisa na estética do filme mas também longe de arruiná-lo, a presença do personagem embora necessária e importante para que se possa entender parte do essencial da história soa no fim das contas mais como um ruído. Ou para pensar numa metáfora temática, um arranhão no disco que volta e meia interrompe a melodia. E que também, num filme deliberadamente caótico, pode ser confundido como parte da bagunça proposta. 

O mais louvável, no frigir dos ovos, é que Elvis dá conta do medíocre proposto pela indústria da cinebiografia, mas vai mais longe. Entrega o drama e a grande performance. (Austin Butler pena com diálogos toscos de certos momentos de dramaturgia mas no que importa aqui, que é o show, ele é hipnótico). E, mais importante que contar uma história, o filme materializa esteticamente um sentimento que consegue fazer jus ao estudo de um personagem que não era só um músico ou só uma marca ou só um homem deprimido, mas algo muito maior que a soma dessas facetas.

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elvis, eua, 2022
direção: baz luhrman
roteiro: baz luhrmann craig pearce jeremy doner sam bromell
fotografia: mandy walker
montagem: matt villa jonathan redmond
elenco: austin butler tom hanks richard roxburgh helen thomson olivia dejonge dacre montgomery kelvin harrison jr. yola david wenham luke bracey alex radu alton mason xavier samuel kodi smit-mcphee chaydon jay natasha bassett leon ford kate mulvany gareth davies charles grounds tony nixon josh mcconville adam dunn christian mccarty gary clark jr. cle morgan shonka dukureh charles andre allen greg powell anthony lapaglia mike bingaman elvis presley priscilla presley lisa marie presley jimi hendrix martin luther king jr. walter cronkite robert f. kennedy lyndon b. johnson charles manson frank sinatra chuck berry john lennon paul mccartney george harrison ringo starr leonard nimoy william shatner nichelle nichols sharon tate

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