É uma comédia de erros e um filme de assalto em estrutura com uma leveza que parece servir só para equilibrar o seu lado dramático. Tanto pensando na parte social trágica quanto no discurso que ele defende. Blue collar se vê como um retrato mas também como um manifesto de classe operária como um grupo à mercê de forças maiores. Tanto os capitalistas quanto supostos representantes como braços do estado e o seu próprio sindicato. 

Schrader sabe da importância da presença de Pryor para a materialização desse lado mais trágico. Como o cara legal do grupo, o palhaço trágico e um representante desse abuso que se acumula sobre seus ombros. O trabalhador que tem na sua repetição uma espécie de maldição que vai lhe tirando cada vez mais. 

É por meio dele que vemos traços de como incômodos minúsculos se acumulam ao longo do tempo para se tornarem coisas que esmagam seu bem estar. Como o armário estragado onde ele sempre se machuca ao tentar guardar seus pertences. 

Por essas e outras, o roteiro tem esses tons de parábola sobre a vivência do chão de fábrica. Numa antítese daquele romantismo de que só os fortes sobrevivem, é como se a obra perguntasse o porquê de um sistema assim. Por que só os fortes? 

Ao passo que a trama do assalto reforça os personagens como dignos de pena quando tudo o que eles querem é todo o dinheiro disposto no cofre do sindicato é algo como 2 mil dólares pra cada um. Que além de serem migalhas que vão lhes comprar um respiro por pouco tempo, só vai piorar a vida deles quando descobrirem o que não deveriam.

No lado mais visual da coisa, essa estreia de Paul Schrader na direção desde já insere o seu lado formal minimalista quando ele busca resolver tudo da forma mais simples possível em cenas onde os cortes custam a acontecer e tentando tirar de cada plano o máximo possível. Como nas discussões que acontecem num viaduto onde vemos, ao fundo, o contador da produção de carros de Detroit, que funciona como um cronômetro macabro da exploração que o filme denuncia.

Mais que isso, o diretor traz na frieza dessa mecanização os monstros que consomem a alma dos protagonistas e do que eles representam em passeios longos por entre a fábrica se movendo e os montadores trabalhando numa repetição mais trágica de Tempos Modernos. Inserindo no meio de um drama até bem clássico em forma, elementos de terror por vezes. Sendo o mais emblemático aquele na câmara de pintura da carroceria de um sedan, onde um deles fica preso. 

É simbólico que, no fim das contas, nenhum dos vilões nomeados lá em cima são os responsáveis diretos pelo que ocorre. Nem o estado, nem o sindicato, nem o dono da fábrica. Mas esse sistema ao redor deles. Que quando não mina a sanidade no dia a dia, destrói possibilidades de quebra desse ciclo vicioso jogando trabalhadores uns contra os outros.

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blue collar, eua, 1978
direção: paul schrader
roteiro: paul schrader leonard schrader
fotografia: bobby byrne
montagem: tom rolf
elenco: richard pryor harvey keitel yaphet kotto ed begley jr. harry bellaver george memmoli lucy saroyan lane smith cliff deyoung borah silver chip fields harry northup milton selzer sammy warren leonard gaines denny arnold rock riddle tracey walter gloria delaney crystal mccarey vincent di paolo jeannine oppewall

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