Um perfil breve do maior astro de Hollywood do nosso tempo.

Thomas Cruise Mapother IV, filho de um engenheiro e de uma professora, teve uma educação católica, pobre e parte da classe trabalhadora de uma região que o permitiu buscar carreira de ator depois de se formar na escola, em 1980, quando mudou para Nova York e depois para Los Angeles. Cruise chega em Hollywood e estreia como coadjuvante em Amor sem fim, filme premiado de Franco Zeffirelli, um dos muitos cineastas europeus que ajudou àquela indústria a se tornar o que é depois do movimento da Nova Hollywood que quebrou com o sistema clássico dos estúdios e com a auto censura do código Hayes e trouxe autoria para dentro do que então era a meca daquela forma de arte. 

Foi neste filme que assumiu pela primeira vez o nome artístico que se tornou um dos mais conhecidos do planeta, Tom Cruise. E foi neste mesmo ano que galgou papéis de mais destaque, primeiro como coadjuvante no drama ambientado numa academia militar Toque de Recolher e depois como protagonista na comédia Negócio Arriscado, lançada em 1983. Um misto de carisma, beleza e talento fez com que ele participasse de alguns filmes de tamanho médio seguintes e até de um longa de fantasia di duretir inglês Ridley Scott chamado A Lenda. Mas foi num filme do irmão de Ridley, Tony, que Tom Cruise alcançou o estrelato: Top Gun – Ases Indomáveis.

Com um fiapo de enredo e uma consciência deliberada de peça de propaganda, o filme tem traços de arte narrativa quando mal constrói um drama básico mas se importa muito mais com sua exploração imagética. A obra busca vender o militarismo enquanto expõe essa cultura como um fetiche freudiano dos estadunidenses. Tudo é feito a partir das imagens dos homens musculosos que montam em máquinas de matar fálicas para derrotar inimigos sem rosto. O filme torna Cruise no protagonista que ele seria, literalmente, mais trinta e uma vezes nos seus trinta e três filmes seguintes. Contando com o retorno ao posto de Maverick, o piloto de Top Gun no filme que ressignifica o original a partir de nostalgia e reumanização do personagem.

É fácil e inescapável gerar paralelos da carreira de Cruise com atores americanos de sua geração como Brad Pitt, Tom Hanks, Denzel Washington ou mesmo o colega de Top Gun, Val Kilmer. Muitos dos quais trabalharam com Cruise e muitos que fizeram carreira nesse espectro dramático que Hollywood propõe e proporcionou aos homens dessa época. E mesmo suas fases bem definidas nestas três décadas seguintes se assemelham a vários deles. 

Um início de carreira que explora a sua beleza e vigor com filmes que têm a juventude como parte vital inclusive colocando ele em comparação a galãs mais velhos como Paul Newman em A Cor do Dinheiro, Terence Stamp em Jovens Pistoleiros e Dustin Hoffman em Rain Man; uma fase que busca reconhecimento e seriedade em papéis muito diversificados e marcados por personagens de características chamativas como o veterano desgraçado em Nascido em 4 de Julho; o advogado com ares de protagonista hitchcockiano em A Firma; ou o vampiro bon vivant beirando o homoerótico em Entrevista com o Vampiro. 

Mas é aí que cria-se um racha que vai definir a carreira dele como frontman e o porquê dele ter se tornado algo como o último de sua espécie agora que chega na terceira idade  (ao menos de acordo com a literatura médica clássica que coloca os 60 anos como marco desta mudança) mantendo o mesmo vigor e juventude.

Enquanto ele se aprofundou em desafios dramáticos que exploravam seu potencial mais teatral e que teve seus ápices em  papéis como Frank Mackey em Magnólia ou Nathan Algren (mais um militar) em O Último Samurai; ele nunca abandonou protagonistas clássicos de ação e suspense que acabaram se tornando os papéis que marcaram sua vida como o piloto de Nascar Cole Trickle em Dias de Trovão, o homem comum proletário máximo Ray em Guerra dos Mundos e, claro, o personagem que define a sua singularidade: Ethan Hunt, o espião de Missão Impossível. 

É cabível especular que tudo tenha a ver com um tino mercantil que fez com que ele soubesse escolher os papéis certos para se tornar o maior astro dos últimos quarenta anos no maior mercado cinematográfico do planeta, mas ao pensarmos nele enquanto um ator que explorou todos os lados possíveis deste complexo industrial, a ideia da ação tê-lo engolido depois dos 40 o torna um paradoxo ambulante ao simbolizar ao mesmo tempo o auge da indústria cultural e um representante do que há de mais basilar e rudimentar na ideia da atuação como uma vocação de ceder o próprio corpo à arte. Ou mesmo se pensarmos na etimologia latina da palavra “actor” como um agente que executa algo. 

Visto que o que mais e mais ele faz no auge de uma carreira extremamente diversa vem a partir de doar seu corpo para peças de arte que colocam sobre ele tudo. De mergulhos que forçam seus pulmões por mais de cinco minutos sob a água a aviões que quebram a barreira do som e colocam sobre ele o peso de múltiplas gravidades. Literalmente. Num eco ainda de pioneiros do próprio cinema como Buster Keaston e Harold Lloyd. Como numa busca existencial do que há de mais fundamental na sua arte. Despido  do que se pensou ser “atuação” em suas muitas formas e métodos.

De volta à pele de Maverick na continuação de Top Gun, Tom Cruise reúne todas as suas facetas, a do astro, a do ator dramático e a do herói de ação yankee e a da celebridade humana e falha. Num resgate de um papel e de um filme/produto específico mas que traz o peso de toda uma carreira em todos os momentos. Na ação que evidencia suas rugas sofrendo o efeito da força G em cockpits de caças reais, no drama de um personagem traumatizado e mesmo na ironia cruel de sua comparação ao lado de Val Kilmer, um par da própria geração que é relegado (mesmo que de forma respeitosa) ao papel de um homem doente e no fim da vida como o próprio provavelmente está. 

É um papel que, como com o assassino Vincent em Colateral, filme de Michael Mannde 2004, concilia o seu talento teatral clássico com a fisicalidade do cinema de gênero. Mas que tem como principal diferencial a ausência da caracterização pesada e caricata. Porque o que vemos em tela é Maverick mas, mais que isso, é Tom Cruise olhando para o próprio passado e tomando conscientemente o controle depois disso.

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