RRR é do tipo de filme que nos faz questionar o porquê de se contentar com certas coisas do cinema de ação ou blockbuster. Tendências que custam a morrer como uma busca do realismo sem razão; a decupagem frenética que quer dar dinamismo às coisas mas só nos perdem; ou uma obsessão inexplicável por minimalismo e sutileza. Como se o cinema só fosse ser arte de verdade ao perder sua força visual e forçar uma estética e ponderada e sem cor. 

Aqui é tudo isso ao contrário. Mesmo que tenha cimentado em si um discurso político cultural e anticolonial, nada é escondido ou feito de subterfúgios ou seriedade; mesmo que seja frenético e nos tire o fôlego, as sequências apresentam cada movimento e cena de luta como grandes peças visuais. Isso sem qualquer sutileza. Nos apresentando, do enredo e subtextos aos embates, tudo de uma forma chamativa que há quem possa achar exagerado mas que concretiza um cinema de ação muito superior à média do eixo Europa e Estados Unidos. 

Parece muito filiado ao gênero wuxia ou ao cinema colorido de ação chinês, mas o referencial estético de RRR vem muito do próprio cinema que Rajamouli vem construindo. Entusiasmado com suas possibilidades de ação apoiada nos efeitos visuais, usando aqui o CGI para construir uma palpabilidade da fantasia. 

Sem qualquer ser mitológico, lenda ou traço de sobrenatural, o filme tem traços de um cinema épico e fantástico para contar uma história de heroísmo rebelde. Ou, se preferir: uma história de revolta, rebelião e revolução sobre dois homens indianos cujos destinos cruzados acendem uma chama que se volta contra a ocupação inglesa numa nação que estava prestes a ser esquartejada pelo império britânico. 

Dentro dessa lógica discursiva que guia o filme, a obra de alguma forma usa essa própria extravagância visual típica do cinema indiano para se contrapor à Grã Bretanha como uma potência sem cor. Coisa que se dá na forma como o filme sempre tem o povo indiano representado enquanto indubitavelmente mais forte, rápido e naturalmente superior aos fracos ingleses e também em momentos culturais específicos, como quando numa espécie de batalha de dança, o esnobe servo da rainha é derrotado pelos heróis do filme. 

Com o detalhe ainda de que na tentativa de se mostrar habilidoso, o britânico só dança ritmos que a Inglaterra “roubou” de outras culturas. O tango argentino, o flamenco da Andaluzia ou o swing dos Estados Unidos. Como se o império sanguessuga tivesse perdido a capacidade de ter uma identidade própria até mesmo ali.

Longe de rejeitar suas influências ou pregar um isolamento, entretanto. O enredo lida muito com a Índia pré-divisão como um país vibrante e feito de diferenças. Com muçulmanos e hindus vivendo como um povo só e que não renega a troca com outros países. Representando muito na ideia destes dois heróis que se juntam dois lados da nação. Um usa uma motocicleta, outro um cavalo, um está mais filiado a um poder da natureza e outro a uma mecanização. Fora as alusões óbvias de que um é fogo e outro água.

São camadas de simbolismos que se cruzam e se acumulam não tentando dar conta da complexidade de tudo mas trazendo à tona a diversidade de elementos como uma constante. O ‘bromance’ entre os dois se completa mesmo nos detalhes mais tolos, como o fato de que um levanta o outro nos ombros no início do filme e agacha para demonstrar a força de suas pernas e outro treina os braços na prisão, mais tarde. Só para que os dois unam essas forças numa sequência de fuga noturna da cadeia. 

A ação ancora os capítulos do avançar dessa história e evoluem tanto em diversidade de situações quanto no peso emocional que elas trazem. A invasão à prisão truncada e complexa; uma grande sequência numa festa noturna repleta de animais selvagens; uma luta numa floresta que torna os personagens em deuses do panteão hindu; a grande sequência de abertura numa ponte que marca, com fogo, água e uma bandeira nacional o encontro dessas duas forças.

Difícil é pensar que isso aqui, na grande lógica do mercado cinematográfico internacional, fica ofuscado pelo cercadinho de algumas franquias sem força ou personalidade. Ainda que até lembre o cinema de Snyder nessa proposição visual mas sem o teor pesado e exageradamente realista e sisudo que acaba indo contra as capacidades visuais dos seus filmes. 

O trabalho de Rajamouli em unificar tudo passa por materializar uma visualidade digital que tanto trabalha para construir o real quanto para unir isso aos signos lendários da história. Com as cenas espetaculares de animais gigantes como tigres, lobos, ursos, búfalos, pássaros  veados ocupando os mesmos espaços que as coreografias de luta mais brutalizadas e até sangrentas ou que momentos ternos e singelos como nas cenas musicais ou quando uma folha de uma árvore tropical flutua até o rosto de Bheem, torturado em praça pública. Só para lembrá-lo da terra pela qual ele resiste.

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రౌద్రం రణం రుధిరం, índia, 2022
direção: s. s. rajamouli
roteiro: s. s. rajamouli vijayendra prasad
fotografia: k. k. senthil kumar
montagem: sreekar prasad
elenco: n.t. rama rao jr. ram charan alia bhatt ajay devgn ray stevenson alison doody olivia morris samuthirakani shriya saran chatrapathi sekhar makrand deshpande rajiv kanakala rahul ramakrishna edward sonnenblick ahmareen anjum twinkle sharma varun buddhadev spandan chaturvedi r. bhakti klein mark bennington gaurav pareek alexx o’nell s. s. rajamouli

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