O que Kosinski e Cruise fazem aqui se deve muito a uma minúcia da exploração nostálgica do Top Gun original, mas o impacto principal talvez venha de uma decisão incomum mesmo até dentro dessa fase do cinema de ação que o ator protagoniza na Paramount: transformar o protagonista numa pessoa de verdade. 

Não é por acaso o título “Maverick”. Porque o capitão Pete Mitchell, que em 1986 era um veículo de estrelato para Cruise reduzido a um arquétipo rudimentar de rebeldia só para ser contraposto ao arquétipo de frieza e precisão do Iceman de Val Kilmer, aqui é um homem com um trauma. Um capitão que nunca subiu de patente e que vive numa busca existencial pelo perigo constante. Abraçado ao trabalho mais arriscado possível da aeronáutica, de testar os limites de monstros experimentais de aço que arranham a atmosfera.

A cena de apresentação de como está Pete nos dias de hoje serve então, além de como uma grande sequência de suspense, como uma amostra do que é a obra como um todo. A tensão da sequência, a ação construída minuciosa a partir da simplificação dos elementos diretos (o personagem tem que acelerar o avião até que ele chegue ao número 9, o que é muito perigoso, mas ele vai então até o 10) ; a nostalgia feita de símbolos que vão surgindo (a mesma jaqueta, a mesma moto, o mesmo homem); e o peso emocional que amarra esse resgate da história (“fale comigo, Goose”). 

É esse terceiro elemento assumidamente piegas e emocional que justifica todo o longa e que impede que Top Gun soe tanto como o cinema nostálgico de algoritmo que ele em boa parte é. 

A estrutura do enredo, que como em Matrix Resurrections repete o esqueleto do seu filme inicial, nos coloca novamente naquela escola de cadetes super habilidosos e nos carrega novamente pela exploração quase sexual da relação freudiana dos norte-americanos com suas forças armadas. Mas isso enquanto faz as alterações precisas de roteiro como que para consertar tudo o que o filme de Tony Scott tinha de mais fraco em 1986: um rascunho de trama.

Se lá, ninguém tinha profundidade, aqui as personagens têm alguns traços de personalidade que servem à história. Se lá a ação contra os soviéticos surgia do nada e não fazia qualquer sentido, aqui ela é apresentada como fundamento do enredo. Por mais que paradoxalmente ela seja tão rasa a ponto da gente sair do filme sem saber ou sequer querer saber quem são os inimigos invisíveis que enriquecem urânio numa instalação em algum lugar rochoso depois de um desfiladeiro.

Não importa, na realidade, justo porque isso só se torna veículo para Cruise como âncora emocional de tudo. É ele que dessa vez tem a responsabilidade de lidar com os cadetes indomáveis ou super cuidadosos. Que precisa saber quem está pronto, quem não está, quem pode acabar sendo morto e em quem ele precisa confiar. Mais complexo que qualquer manobra de um jato prestes a explodir é escolher entre preservar a vida de um personagem com quem ele tem uma dívida eterna e arriscá-lo correndo o risco dele não estar pronto. Dele não voltar. 

Isso enquanto a ação tem que fazer sentido; enquanto a repetição dos momentos e as alusões ao primeiro filme têm que apertar os botões certos de nostalgia; e enquanto o arco de todos esses novos personagens arquetípicos também precisam ser satisfatórios. 

Existe um esmero na forma como essa trama é fabricada. Colocando os personagens em situações que eles precisavam e que a nossa relação com eles nos faz ansiar. (como quando, em um momento, dois deles vão parar dentro de um avião de um modelo muito específico só para que exista uma possibilidade de redenção ali)

Aliás, é das coisas mais satisfatórias perceber que Rooster de Miles Teller que tinha toda a cara de ser o Maverick da turma é o Iceman do grupo. Cauteloso demais para seu próprio bem.

O aspecto preciso da obra dá a Top Gun: Maverick ares inescapáveis de filme super construído. Diferente de Matrix, ele não quer implodir nada aqui. Ele não quer nada mais que nos fazer matar a saudade de Mav e nos entreter com as cenas de ação espetaculares. O que consegue com a mão nas costas. Mas não por isso ele se salva de deixar certas decisões utilitárias à mostra. Como a personagem de Jennifer Connely que parece só existir para que Pete tenha alguém da idade dele para conversar. Um mecanismo ambulante de roteiro que está lá tanto pela tragédia de que Kilmer não está bem o suficiente para servir a esse papel quanto porque parece que Hollywood não está pronta para dar o papel a Kelly McGillis. (sabe? uma mulher de 60 e poucos anos que parece ter essa idade e está bem com isso?)

A grande surpresa de Top Gun: Maverick no meio de tudo isso, entretanto, é perceber que enquanto o espectador ansiava com razão por ver em tela grande as acrobacias típicas de Cruise como um dos grandes protagonistas de ação da Hollywood atual, são outros os momentos que mais nos comovem. São aqueles dele sozinho no cockpit ou nos corredores do quartel. Sentindo falta do amigo e não sabendo lidar com Rooster.

É claro que é incrível ver esse homem decolar de um porta-aviões com um F-22 quebrando a barreira do som numa tela enorme. Mas melhor ainda é vê-lo envelhecer. Chorar. Sentir. Lidar com a força G literal que comprime seus ossos mas também com o remorso que esmaga seu peito.

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top gun maverick, eua, 2022
direção: joseph kosinski
roteiro: ehren kruger christopher mcquarrie justin marks peter craig eric warren singer
fotografia: claudio miranda
montagem: chris lebenzon eddie hamilton
elenco: tom cruise miles teller jennifer connelly glen powell jon hamm monica barbaro lewis pullman bashir salahuddin val kilmer ed harris charles parnell jay ellis danny ramirez greg tarzan davis lyliana wray jean louisa kelly manny jacinto jake picking raymond lee kara wang jack schumacher chelsea harris darnell kirkwood austin bowerman stephanie andrea barron rachel winfree peter mark kendall ian gary bob stephenson landon gordon james handy chido nwokocha chaz ingram rachael markarian shannon kane norman ralph eliasen adam pepper randy davison roberta sparta jane vande voorde anthony edwards meg ryan

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