É um filme sintomático do estado atual da cinebiografia hollywoodiana. Tem todas as evidências aqui: grande elenco imitando os biografados, uma estrutura pseudo dinâmica que brinca com cronologia, passa pelos pontos mais importantes e que nunca se aprofunda de verdade e um ranço de querer agradar a todos. 

Nunca indo muito longe na crítica enquanto sempre superficialmente fala do aspecto problemático para justificar e dar algum peso.

Michael Showalter faz um ensaio interessante de construção dramática, entretanto, quando cria o filme a partir do elefante na sala aqui, que é a maquiagem pesada e vencedora de Oscar que existe sobre Jessica Chastain e sobre os outros personagens também. 

De alguma forma, o filme surge esteticamente sob essa ideia da aparência e das lutas em relação a isso como os aspectos definidores de Tammy. Embora as duas horas passem sem que nada disso seja diretamente referido por algum deles (entra aqui a chapa branquisse de não querer ofender).

Tudo isso serve como um mote até inteligente num roteiro que fala das revoluções estéticas que o casal de salafrários fez na televisão evangélica (embora o filme, a produção, a Jessica, façam tudo para empurrar a versão de que ela foi uma vítima da situação).

Eles mudaram a forma dos programas, propuseram a ideia de olhar diretamente para o fiel espectador, tiraram o peso da culpa das costas de muita gente desesperada.

O que se impõe, entretanto, é uma tremenda banalidade. O filme quer, afinal, nos aproximar do lado humano da protagonista. E por “humano” leia-se algo tão raso quanto um perfil pago em alguma revista. Tudo se torna, então, um encadeamento de acontecimentos que nem sempre parecem contribuir para uma ideia coesa. 

A experiência se faz de episódios grudados uns nos outros e do desespero pela reconstrução da época. Não só tentando atingir as roupas exatas, o visual perfeito, a recriação dos programas televisivos, dos cenários e daquele mundo, mas literalmente usando imagens reais para nos mostrar o resultado da imitação.

Mas a falta de identidade ou de uma escolha que unifique tudo faz com que isso se torne um decalque. O filme desmorona ao longo das duas horas e se torna algo hipnótico e enfadonho ao mesmo tempo enquanto faz isso. 

O auge que vem antes do fim é o momento musical que solidifica o delírio todo.

Provavelmente sem querer, os olhos de Tammy Faye materiliza uma comédia sobre uma personagem que parece completamente perdida naquele mundo. 

Luta tanto para vitimizá-la e afastá-la dos escândalos e de tudo o que há de ruim que caricaturiza a personagem a ponto de torná-la algo como uma mulher comicamente ingênua circulando por essa história. (ignorando seu poder, sua independência, sua fortuna etc)

E só pra não dizer que não falei dela: Jessica Chastain, com uma atuação surpreendentemente naturalista sob a maquaigem pesada, atrasa esse processo de fazer a narrativa se cancelar aos poucos. Embora não salve o filme, ainda assim.

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the eyes of tammy faye, eua, 2022
direção: michael showalter
roteiro: abe sylvia
fotografia: mike gioulakis
montagem: mary jo markey andrew weisblum
elenco: jessica chastain andrew garfield cherry jones vincent d’onofrio mark wystrach sam jaeger louis cancelmi gabriel olds fredric lehne chandler head jay huguley dan johnson michael maccauley grant owens coley campany craig newkirk wes jetton jess weixler maurie speed lindsay ayliffe julie p. tuggle kimberly ann parker dana marks alan boell randy havens lila jane meadows carolyn mints kelly borgnis kelsi chandler joe ando-hirsh john johnson grayson carter

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