Poderia ser a grande obra-prima de Lyne se pensarmos no contexto, na evolução, na premissa, no subtexto e nos simbolismos presentes aqui. Uma história tórrida de onde o diretor conjura algumas das sequências sexuais mais bonitas de seu cinema, que é movida por uma reflexão sobre capitalismo e relações de classe. 

Como um conto de fadas que pondera sobre transações de valores enquanto forças que corrompem qualquer relação, o filme é sobre a história de um casal composto por Woody Harrelson e Demi Moore nos devidos auge de seu sex appeal que recebe a oferta de um milhão de dólares em troca de uma noite com ela.

O filme se faz a partir do evoluir da situação tanto quanto da concepção desses personagens. O bilionário, Robert Redford como encarnação do capitalista e o pobre, arquiteto, Harrelson como avatar do proletariado norte-americano que vive a vida por entre os labirintos de crédito. A moeda, o dinheiro, o fato de que o que eles almejam é uma casa e a ideia de que tudo se dá numa noite em Las Vegas, se tornam signos colaterais dessa relação maior.

A câmera de  Adrian Lyne se debruça sobre esses objetos como representantes de algo maior. E a montagem e a escolha do que é mostrado ou não criam uma mensagem por si. 

O sexo entre o casal, filmado sempre como uma manifestação do amor e da pureza da relação mas sem nunca abrir mão do fetiche e do erotismo daqueles corpos. Não por acaso, o diretor busca sempre um par de atores objeto do momento para compor seus filmes. A transa no chão da cozinha, na cama do hotel e em qualquer lugar é sempre um pilar dramático do desenvolver. Sustentando os atos iniciais da obra.

Já a relação sexual título, que se dá a partir da troca, da cerimônia e do ritual jurídico e social ao redor – da personagem de Moore com o bilionário de Redford – nunca é concretizada na tela. Existindo tão somente no mundo das ideias e da imaginação do espectador. 

Isso porque ela é manchada, maculada, pela sujeira da transação financeira que a move. Não necessariamente só pela falta de amor mas também porque ela não ocorre a partir do desejo de duas pessoas. Poderia fazer do filme uma obra-prima. Não é o caso. 

Não pela falta de talento do cineasta em concretizar todos os elementos estéticos necessários para a tradução desse conceito complexo. Até porque ele vai longe com isso. Num formalismo incisivo que faz de tudo um jogo de símbolos. Dos planos que retratam objetos como notas, moedas, contratos até a relação direta entre as cores e a falsa pureza que a personagem de Moore veste ao longo do filme.

Mas Proposta Indecente não é tão grandioso quanto poderia ser porque o que surge em algum momento e que toma conta dessa exploração mais descarada dos temas é um melodrama romântico muito banalizado. 

Como se não tivesse peito para sustentar sua temática mordaz, a obra vai abrindo mão aos poucos de seus impulsos devassos ou libertinos. A ponto de mesmo confundir a lógica que o filme cria quando as cenas de sexo começam a sumir não só para conceber a crítica ao materialismo mas em prol de uma suposta pureza de relações. 

Tudo se torna mais e mais conservador a partir do desenrolar. Mesmo que estruturalmente seja exemplar na questão dramática e que seja até poética a forma como tudo se resolve (com um lance de um milhão de dólares em um leilão). É como se o filme perdesse seu potencial aos poucos. 

Nesse sentido, a narração melosa vem como principal elemento a domesticar a devassidão que o resto propõe. Sempre a partir de um lamento daquilo puro que o dinheiro quase corrompeu.

indecent proposal, eua, 1993
direção: adrian lyne
roteiro: amy holden jone jack engelhard
fotografia: howard artherton
montagem: joe hustshing
elenco: robert redford demi moore woody harrelson seymour cassel oliver platt billy bob thornton billy connolly rip taylor pierre epstein joel brooks pamela holt nicholas georgiade danny zorn kevin west tommy bush mariclare costello jedda jones myra j. edwonda white frankie j. allison joseph ruskin joe la due ben w. fluker richard livingston joe bays david rees irene olga lópez israel juarbe lydia nicole iqbal theba maurice sherbanee elsa raven matthew barry chi muoi lo art chudabala hilary reynolds selma archerd robert ‘bobby z’ zajonc alan d. purwin sheena easton herbie hancock ashlyn gere

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