Num cenário de cinema de animação mainstream que fica entre, por um lado, o platô da evolução do digital como o da Píxar que não tem muito mais pra onde melhorar em qualidade de textura e, por outro, as tentativas mais “artísticas” que tentam resgatar traços tradicionais como os filmes da Aardman ou do estúdio de Wolf Walkers, a Sony parece abraçar o meio termo ao tentar integrar bem essa estilização que abraça o tecnológico. 

Família Mitchell se apoia nisso esteticamente, trazendo uma visualidade, uma montagem e um frenesi de super estímulos e linguagem memética para concretizar a ação como um elemento central aqui no equilíbrio com a dramédia do enredo. 

Essas cenas mais apoteóticas e que trazem um esmero na decupagem e na construção destas sequências se tornam, entretanto, tanto a melhor “cola” visual do filme aqui quanto uma fuga fácil para não explorar mais todo o potencial que a premissa traz. 

Com uma protagonista tão claramente cinéfila, que ama filmes maneiristas e vulgares de ação e terror e que tem uma veia cômica muito sensível, é surpreendente que o filme não integre mais vezes os elementos tais como a cena do Shopping Center que faz referência a filmes de zumbi de Romero. Ou mesmo momentos de ação maneirista como quando a mãe é tomada por uma fúria para proteger o filho. 

O longa fica num pêndulo entre a criação destes momentos super pensados em questão de cenário, coreografia, espaço, reverência e outros onde ele se debruça no seu aspecto memético, com piadas que ecoam a linguagem audiovisual mais contemporânea do tiktok, do discord e de outras mídias ‘zennials’. 

No enredo, a mesma coisa. Um vai e vem que caminha pela linha entre a ação e a ficção científica e as relações familiares complicadas e com um peso de choque geracional dela com os pais. 

Existe um subtexto tecnológico que vai unir essas duas coisas mas nem sempre ele é sólido o suficiente para garantir que o filme não pareça uma colagem de dois lados. 

Nessa toada, entretanto: entre o drama e a ação e entre a estética reverencial e a memética, o filme se segura bem e muito por conta do carisma das personagens. 

Nem tão completamente tolos ou caricatos como nos filmes da Dreamworks e nem ancorados num peso emocional desnecessariamente denso da Pixar: aqui existe uma leveza no quanto estes personagens muito humanos também se deixam ser, vez ou outra, personagens de animação que nem sempre são presos pelo lado verossímil da sua existência. 

O filme pode não durar muito tempo na memória e provavelmente nem se tornar um clássico ou coisa assim, mas Katie Mitchell é eterna. 

Não só porque ela nos fisga enquanto amantes dessa coisa tão pueril quanto assistir a algo mas também porque ela traz consigo uma síntese do aspecto conciliador dos choques geracionais. 

Apaixonada pelo caseiro e pelo faça você mesmo e pelas soluções de um cinema independente de verdade mas completamente entusiasta dos aparelhos eletrônicos, ela carrega muito a ideia central de um filme que lida com um apocalipse tecnológico mas que não demoniza a tecnologia por si. 

Sem o peso teórico social de outras obras que mesmo cômicas só se debruçam sobre esse binarismo.

the mitchells vs the machines, eua, 2021
direção: michael rianda jeff rowe
roteiro: jeff rowe michael rianda
montagem: greg levitan
elenco: abbi jacobson danny mcbride maya rudolph olivia colman michael rianda eric andré fred armisen beck bennett chrissy teigen john legend charlyne yi blake griffin conan o’brien melissa sturm doug nicholas ellen wightman sasheer zamata elle mills alex hirsch jay pharoah natalie canizares jeff rowe zeno robinson grey delisle will allegra alison rich madeleine mcgraw doug the pug griffin mcelroy lex lang illya owens ashley peldon michelle ruff justin shenkarow jim pirri juan pacheco lisa wilhoit

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