Certos filmes, ou tipos de filmes, sofrem pelos pecados de um bando de outros. Attica não tem muitos problemas que são só dele, mas é um documentário que fica no meio do caminho e alcança muito pouco porque é feito aos moldes de um bocado de documentários similares dessa era do streaming. 

Algo entre uma grande reportagem de um telejornal ou um podcast bem produzido, esse estilo tem temas específicos espinhosos, diretores bem intencionados e um grupo de fontes boas para falar sobre o assunto. O que falta é uma razão de ser cinematográfica que justifique o visual do audiovisual. Attica felizmente tem isso. Eventualmente.

Remontando a história de uma rebelião em um grande presídio que terminou em tragédia, o filme resgata no grosso das pessoas entrevistadas uma série de prisioneiros que viveram aquele momento. Algo dolorosamente familiar para brasileiros que lembram de Carandiru nos anos 90. A força vem dessa história. Vem dessas vozes. Vem de tudo o que se tem para pensar a partir do acontecido.

Detalhes como o fato da comida e do cuidado médico serem muito melhores quando a cadeia estava em estado de sítio ou da diferença de “tratamento” que os presos brancos tinham o privilégio de receber. E de como esse privilégio se tornou culpa para tais sobreviventes. 

É um evento que traz as políticas racistas e de extermínio dos EUA à tona junto de uma reconstrução de época que faz questão de lidar com esses contrastes daquela cidadezinha feliz nos 1970s e o presídio que sustentava aquela comunidade. Quer dizer. Ao menos na forma como tudo é relatado. 

Porque pra preencher a obra, Stanley Nelson liga o piloto automático e fica alternando entre um bocado de imagens aéreas, vídeos e reportagens e entrevistas bem fotografadas das pessoas bem vestidas em salas bem iluminadas. Aquele padrãozinho Netflix de sempre. (no caso: Showtime)

O que se tira disso? A importância da cor da pele de quem conta a história? talvez. Mas o que vem à tona é algo que parece uma preguiça ou uma falta de saber como ilustrar a história contada. 

Em um momento, para preencher o depoimento de um advogado que pegou um jato do governador e foi para o local, o filme chega a usar uma imagem de banco de um jato moderno e passar nela um filtro de granulação da imagem que meio que (na verdade não) remete às fitas daquela época. 

É só no fim que o fato dessa história ser contada em forma de filme e não de um podcast pra hora de lavar a louça faz algum sentido. 

Com a brutalidade das imagens do massacre deixado pela polícia que invadiu e atirou até mesmo em guardas lá dentro. Nada que justifique uma hora e meia que veio antes disso, entretanto. Infelizmente.

attica, eua, 2021, 2022
direção: stanley nelson, traci a. curry
roteiro: stanley nelson
fotografia: stefan beaumont ryan bronz kevin j. burroughs ronan killeen antonio rossi bill winters
montagem: aljernon tunsil

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