Solidificando filme a filme a verdade inconveniente de que um bom roteirista não basta pra fazer um bom cinema, Aaron Sorkin entrega aqui o melhor ou o menos pior de seus filmes (?) pelo simples milagre de parecer menos interminável que as outras tentativas. Isso graças a, ironicamente, um roteiro que (apesar de completamente reacionário) segura uma estrutura mais palatável. Mas mesmo assim desnecessariamente inflada. 

A tal estrutura se dá a partir da produção de uma semana de um episódio de I Love Lucy, num momento de grande sucesso da série. Dia a dia, três mistérios precisam ser resolvidos e três linhas de suspense criam uma tensão para a protagonista, Lucille Ball, muito bem interpretada por Nicole Kidman. 

Primeiro, uma suspeita de que ela era comunista, no auge da lista negra que isolava artistas progressistas à época; segundo, o pepino de lidar com o fato de que a atriz estava grávida, sendo que isso (o fato de que mulheres casadas transam e fazem bebês) nunca tinha sido abordado diretamente com o público televisivo americano; e terceiro, uma suspeita de traição do marido e co-protagonista da série e produtor do programa, o cubano Desi Arnaz.

Seria mais do que suficiente para  Sorkin dirigir o seu primeiro grande filme ou ao menos o seu primeiro filme razoável, mas ele acha por bem complicar demais essa situação. 

Entre um dia e outro, uma biografia tradicional e enfadonha feita a partir de flashbacks que só servem como adaptações audiovisuais de verbetes da Wikipedia. Sabe? Caso o espectador que vá ver o filme da maior estrela da televisão do século XX não saiba quem ela é. 

Mas o mais intrigante mesmo (no mal sentido) é o falso documentário que, por alguma razão, para conectar os flashbacks aos momentos de tensão daquela semana fatídica, usam três ou quatro atores para interpretar as versões velhas daqueles roteiristas. 

Com depoimentos que são algo do tipo: numa cena em que Nicole diz que conheceu o marido num estúdio em Hollywood, o filme corta para um dos roteiristas falando: “Lucille conheceu Desi num estúdio, quando ele estava gravando o filme x em Hollywood”. E então, o flashback é introduzido com uma cena do casal bebendo num ba… Mentira. É com uma cena deles se conhecendo num estúdio em Hollywood.

O ponto deste ser um bom roteiro (nem é, pensando bem), é que existe essa joia oculta sobre todo o peso social, político, de gênero e emocional que se colocava nos ombros de Lucille naquele momento. Um filme tenso sobre aquela semana agridoce que foi tão importante e revolucionária para a produção da série. Mas que fica soterrado por estes penduricalhos completamente banais e desnecessários.

Apresentando os Ricardos, como foi com Os 7 de Chicago e, já nem lembro tanto assim, mas deve ter sido também com Molly ‘s Game, sofre muito dessa crise de ser um filme pequeno que se acha um filme grande. 

Que busca trazer estofo para si carregando-se de sub tramas, cenas extras, discussões, reafirmações de seus dramas. Mas que constroem um balão cheio de nada que se arrasta por mais de duas horas. 

Não bastasse a completa falta de inventividade do “diretor” em construir tudo da forma mais enfadonha (disfarçada de “clássica”) e mesmo construções meio constrangedoras de cenas como aquele telefonema ao vivo daquele cara no final do filme, Sorkin ainda falha em perceber a força das cenas que ele próprio escreveu. 

Como por exemplo o fato de que o script claramente em alguns momentos fala da comédia física (na qual Lucille era especialista) enquanto usa diálogos para construir uma comédia mais de roteiro de um jeito meio metalinguístico. Mas que é tão mal executado e sem qualquer jeito na hora de construir dramaturgia básica das conversas, que tudo se perde nos momentos de silêncio desconfortável.

Pra não dizer que nada se salva, dá pra afirmar que essa complicação desnecessária do filme inflado por tanta coisa meio que ecoa as camadas de preocupação da protagonista. Como se o filme, assim como ela, fosse retirando as cascas de um problema central. 

E os pontos altos de tudo, no fim, são as recriações de momentos clássicos de I Love Lucy que colocam Nicole Kidman no lugar de Lucille só pra nos lembrar da grande atriz que se esconde em todos esses projetos medíocres de dona de casa rica dos últimos anos. 

Mas se as cenas só funcionam porque são uma cópia minuciosa do que foi feito 60 anos atrás, dá pra dizer que isso é mérito de Sorkin?

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being the ricardos, eua, 2021
direção: aaron sorkin
roteiro: aaron sorkin
fotografia: jeff cronenweth
montagem: alan baumgarten
elenco: nicole kidman javier bardem j.k. simmons nina arianda tony hale alia shawkat jake lacy linda lavin ronny cox john rubinstein clark gregg nelson franklin jeff holman jonah platt christopher denham brian howe ron perkins baize buzan matt cook joshua bednarsky dana lyn baron dan sachoff max silvestri renee pezzotta chris wolfe breanna wing caroline anderson jamie miller gail rastorfer russ burd guido cocomello john funk angela leib david saenz stephanie lesh-farrell ron ostrow pamela mitchell lawrence novikoff jack benza peter onorati evie nicholson rick batalla john f. carpenter melinda sullivan christian roberts gus lynch allan wayne anderson david jonathan fine val chmerkovskiy asiel hardison reina hidalgo jenna johnson will loftis noelle marsh leo moctezuma nayara núñez britt stewart eddie torres jr. james patrick duffy emily marsh cece camps daniel armella molly meyer shiree nelson

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