A dúvida era se Eggers daria conta, depois de longas de terror bem contidos e intimistas, de lidar com um filme grande e épico assim. Por um lado dá certo. Principalmente pensar que esse é um veículo que aceita seus impulsos solenes. Por outro, a pior coisa de Homem do Norte é o como ele nunca cresce de verdade e nunca convence na sua construção épica de herói mítico. No fim ele só consegue se justificar narrativamente ao se acomodar num espaço de história e ação menor que acaba repetindo de algum jeito o padrão dos anteriores.

Chamar a estrutura de irregular seria um eufemismo, mas no fim todos os problemas parecem vir desse mal jeito em organizar o enredo. Porque embora a linearidade simplista da contação cronológica da história consiga dar conta do épico, parece que o filme nunca sabe bem se quer recircular a fórmula do cineasta ou se quer se arriscar no cinema épico de tiozão dos homens musculosos cobertos de sangue e suor.

O filme que se inicia, que é sobre um príncipe que foge depois que o pai é morto pelo tio, soa mais como uma tentativa do que uma execução. É tudo muito burocrático. Como se ele passasse rapidamente só pelas cenas obrigatórias. Completando a check list de: apresentação dos personagens e enredo; cena de barco; cena de batalha; cena ritualista.

É tudo bonito, bem fotografado. É até “empolgante” quando certas coisas acontecem. (quando alguém pega uma lança no ar, quando eles invadem uma cidade, quando eles se entregam aos rituais pagãos) Mesmo os momentos de fúria e macheza que lembram de forma constrangedora uma coisa de cultura coach, funcionam porque são trabalhados com um tom pouco sério. Como se o filme se preocupasse mais com essa busca de uma construção épica que foge dos padrões normativos de histórias europeias do que em tornar tudo algo palatável. 

São momentos que, apesar da estranheza, ainda parecem tímidos em “se curtirem” como algo singular no cinema de um gênero épico tão formatado.

Dá pra dizer, aliás, que o que mais funciona nesse primeiro ato são as viagens de hidromel, intoxicação e sonho. Pode ser que o filme soe como algo inflado no todo mas o fato é que ele se beneficiaria de mais estofo. Mais cenas de apresentação e construção do personagem central. Mais momentos da vida clandestina e de moralidade duvidosa dele. Mais ação. Mais sangue. Mais Willem Dafoe e Björk com sua coroa de trigo extraordinária.  

No fim, o filme de horror de um escravo vingativo em uma vila islandesa é a melhor coisa que surge do Homem do Norte. Mesmo que tenha seus problemas na falta de força do personagem e na dificuldade de nos fazer relacionar com seus anseios vingativos. Que lembra Rei Leão, lembra Hamlet mas que tem como origem o mito nórdico que serviu de inspiração pra tudo isso.

Mesmo um possível desinteresse na história vingança no fundo é culpa da primeira parte fazer tudo de um jeito tão desinteressado. Mas apesar de tudo, é nesse ato que o cinema que Eggers sabe fazer o que faz de melhor. É aqui inclusive que ele conecta mais fortemente os aspectos históricos e fantasiosos dessa lenda. A valquíria, o gigante, a espada “mágica” etc.

De alguma forma, o filme remete a Cavaleiro Verde de tempos em tempos. Talvez ainda não dê pra chamar de tendência, mas são dois filmes que tentam trazer um olhar mais estilizado e entusiasmado para a fantasia de mitos épicos que funcionam com um tom minimalista.

O Homem do Norte pode ser mais troncho e desconjuntado que o filme arturiano de Dev Patel. Mas ao menos ele não é tão enfadonho.

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the northman, eua, 2022
direção: robert eggers
roteiro: sjón robert eggers
fotografia: jarin blaschke
montagem: louise ford
elenco: alexander skarsgård nicole kidman claes bang ethan hawke anya taylor-joy gustav lindh elliott rose willem dafoe phill martin eldar skar olwen fouéré edgar abram jack gassmann oscar novak ingvar e. sigurðsson jack walsh björk ian whyte katie pattinson andrea o’neill rebecca ineson kate dickie ísadóra bjarkardóttir barney kevin horsham seamus o’hara scott sinclair tadhg murphy james yates hafþór júlíus björnsson ian gerard whyte ralph ineson murray mcarthur nille glæsel jonas lorentzen magne osnes ineta sliuzaite finn lafferty jon campling helen roche gareth parker faoileann cunningham mark fitzgerald gavin peden joel hicks chris finlayson eric higgins matt symonds luca evans james harper-jones thomas harper-jones sheila fitton lily bir

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