Mais e mais parece que essa nova fase Marvel onde o estúdio dá muito dinheiro para bons diretores é meio que um jogo psicológico de Kevin Feige pra dizer quem manda. Raimi é a vítima mais recente num filme que é o melhor dessa era depois que Thanos matou todo mundo e depois morreu. Mesmo assim, deve ser um dos melhores filmes da Marvel desde então. Ainda que seja um dos piores da carreira do diretor.

O que suporta as coisas até o fim é o quanto as cenas de Raimi ancoram bem uma obra que teima em deixar o padrão MCU vir à tona. O que tem de ruim vem das obrigatoriedades industriais de mostrar e provocar o fã com personagens x e ganchos y. O que tem de bom é como mesmo nesse cercadinho, o cineasta costura uma aventura bem funcional do personagem principal.

Comparando com o anterior, aliás, Raimi eleva o mundo do Doutor Estranho que existe dentro do mundinho da Marvel Studios. Porque, se no primeiro longa – que nos apresenta a um mago super herói que pode fazer qualquer coisa mas que Scott Derrickson relega a caleidoscópios e cidades se dobrando num sub Inception – no segundo os personagens extrapolam seus poderes e o universo se expressa das formas ao menos mais diversas e criativas.

Falo das cenas que exibem a manipulação de realidade da Feiticeira, como aquela em que ela ataca por meio dos reflexos; falo da ação do próprio protagonista, como uma que é feita a partir de elementos musicais; mas também me refiro à própria decupagem que se integra mais abertamente a um sentimento de aventura. Como a sequência em que ele precisa sair mais cedo de um evento chique porque algo surge nas ruas nova-iorquinas.

A trilha de Elfman, a sagacidade da montagem e o horror bem integrado em várias sequências completam essa quase nostalgia para o fã do cinema de Raimi. 

Em um momento, quando uma personagem é perturbada por outra de uma realidade paralela, a cozinha da sua casa se manifesta ao seu redor como num filme de possessão maligna ou de fantasmas; em outro, quando uma personagem ataca uma espécie de laboratório, toda a estética estilizada faz dela um monstro sanguinário cuja passagem deixa rastros de sangue. 

É o mais gore, o mais profano, o mais fora da casinha que a Marvel já foi, de alguma forma. Mas por outro lado é tão pouco gore, profano e fora da casinha se a gente compara com Raimi ou com qualquer cineasta interessado nessas coisas… Tudo isso suscita a mãe de todas as perguntas em relação a esses filmes. É bom de verdade ou até que é bom considerando que é Marvel Studios?

A resposta vem pela constatação de que, apesar de todos esses elementos isolados sejam uma sequência muito melhor e mais interessante que a média dos filmes do estúdio, ao pensar na experiência como um todo é difícil escapar da sensação de que é muito longo, de que muita coisa sobra, de que mesmo os momentos mais criativos vêm de um Raimi preso numa coleira. Porque parece que mesmo esse filme um tantinho mais autoral traz consigo as obrigações de repetição do método Feige. 

(A digressão no meio do longa só para mostrar um grupo importante de personagens, por exemplo. Spoiler: aquela cadeira amarela de baixo orçamento né? O que rolou?)

Não que essa lógica de controle de um diretor com cinema autoral nunca funcione. Os irmãos Russo e James Gunn aprenderam bem a lidar com essas limitações, por exemplo (até porque quando ele tem muita liberdade, não funciona muito bem). Mas aqui é tudo meio troncho. Vem muito à tona, no fim das contas, mais um Raimi tentando se adequar a um espaço do que um Raimi que concretiza o potencial dentro deste espaço. 

Narrativamente, ao menos, é um filme satisfatório quando de alguma forma se desdobra tão somente a partir de uma evolução pessoal do personagem. Ele, em busca de algo que não pode ter, é confrontado com versões alternativas de si e, por isso, aprende uma lição.

Nesse meio tem muita coisa boa mas também tem muito pulso firme do produtor que é realmente o maior autor disso tudo.

doctor strange in the multiverse of madness
direção: sam raimi
roteiro: michael waldron
fotografia: john mathieson
montagem: bob murawski tia nolan
elenco: benedict cumberbatch elizabeth olsen chiwetel ejiofor benedict wong xochitl gomez jett klyne julian hilliard sheila atim adam hugill michael stuhlbarg rachel mcadams hayley atwell anson mount lashana lynch john krasinski patrick stewart charlize theron bruce campbell ross marquand andy bale ako mitchell momo yeung daniel swain topo wresniwiro eden nathenson vinny moli charlie norton aliyah camacho ruth livier chess lopez david tse yasmin chadwick anthony knight nuakai aru victoria grove joshua peace nina jalava joshmaine joseph yenifer molina kevin dalton orphee sidibe gregory fung cecilia appiah victoria sterling jordan alexandra bobbie little gabriella cooper-parsons andré layne michael waldron bridget hoffman scott spiegel jessica pennington andrew morgado audrey wasilewski christian rummel richie palmer

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s