Num filme que ressignifica a imagem de Cristo num contexto de um cinema produzido no país mais católico do mundo, Pasolini faz da Palavra com P maiúsculo uma costura estética para um filme sobre o Messias. Tornando esse protagonista em um ser político, humano, pertencente a uma comunidade. Muito mais que em simplesmente filho de Deus. 

Não é que o longa negue os super poderes do protagonista do novo testamento. Aliás tanto ele respeita e replica sua história que a base de 100% de seus diálogos e monólogos é justamente, como o título entrega, o evangelho. Mais especificamente o livro de São Mateus. Um dos apóstolos que passa por aqui. 

Então a concepção divina está lá. Assim como o isolamento no deserto, a crucificação, os milagres, a ressurreição. Mas o foco é outro. O do homem no topo da colina discursando. 

O diretor abusa dos planos fechados nos personagens diante dos templos, das ruínas, dos cenários do primeiro século. Frequentemente isolando Jesus Cristo no quadro como um líder revolucionário daquele tempo comandado pelos fascistas fariseus. O preto e branco, o minimalismo da decupagem e o naturalismo dramatúrgico denunciam um tratamento de neorrealismo para o evangelho.

O uso dos não atores dá aos apóstolos, aos santos, às figuras icônicas do cristianismo, a humanidade que sustenta essa perspectiva. É do tipo de coisa que precisa especialmente ser vista em contexto. Por isso, detalhes como a culpa de Pedro são tão sentidos. Por isso os atos de Judas são tão pesados. Por isso nos aproximamos daquele grupo. 

Pode não parecer nada fora do comum hoje, depois de A Última Tentação de Cristo, de Paixão de Cristo, de Maria, de Maria Madalena e, sei lá, Código da Vinci… Mas existe algo de especialmente simbólico num diretor gay italiano em 64 lançar um filme sobre o lado humano de Jesus Cristo.

O conteúdo por si dos discursos e da vida mostrada aqui conversa, mais que com uma disrupção da imagem bíblica tradicional, com uma Itália em ebulição social e política. Que virou de ponta cabeça com Mussolini morto depois da segunda guerra. 

Cristo fala da fé, da sua missão e de Deus, mas fala também sobre comunidade, irmandade e a prática diária desta fé como dever do povo. Qualquer semelhança com o conceito marxista de práxis revolucionária não é mera coincidência.

il vangelo secondo matteo, itália, 1964
direção: pier paolo pasolini
roteiro: pier paolo pasolini
fotografia: tonino delli colli
montagem: nino baragli
elenco: enrique irazoqui margherita caruso susanna pasolini marcello morante mario socrate settimio di porto alfonso gatto paola tedesco umberto bevilacqua rossana di rocco

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