Coisa que até tem se tornado mais comum ainda mais depois do advento de Código Da Vinci, a recentralização de Maria Madalena enquanto uma personagem que é tanto seguidora e responsável pela igreja baseada em Jesus Cristo quanto Pedro ou qualquer outro apóstolo, surge com ares de provocação. Num filme sobre um filme sobre ela, Ferrara só faz empilhar mais e mais camadas nessa aura de um cinema afrontoso.

Falando do questionamento da igreja que atualmente se relaciona a terrorismo, machismo e a corrupção dessa organização, Maria fica entre um centro quase documental e uma narrativa ínfima que cola tudo isso.

Um jornalista prestes a ser pai que busca reencontrar a fé e expiar os pecados; um diretor babaca que acha que reinventa a roda com a “ousadia” de sua arte num filme provocador (será que Ferrara está comentando Mel Gibson aqui?); e uma atriz que ao se conectar com a apóstola no centro de tudo, se torna uma peregrina que circula entre os escombros do que o cristianismo se tornou dois milênios depois.

O filme carece de um poder dramático quando joga com esse afastamento entre seu lado mais didático e o documental de buscar entender a igreja. O que faz os personagens parecerem apêndices dessa discussão principal. 

Ainda que a força das cenas e da atuação dos intérpretes traga um peso aqui. 

O foco, entretanto, parece ser mesmo esse pensamento sobre o que sobra da fé no século XXI. O que tem a igreja atual (de 2005, no caso) a ver com a ideia da igreja que foi idealizada por Pedro? O que machismo e egocentrismo do apóstolo principal infectaram na estruturação dessa organização? Como a religião evoluiu a partir disso? E quais são as consequências?

A obra se contenta em fazer essas perguntas mas não busca necessariamente respondê-las. 

É algo que conversa com o cinema brutal de Ferrara pelo subtexto e pela questão blasfemadora da relação de seus filmes com a sua fé. Mas que não vai tão longe a ponto de perder uma pecha de um longa mais acanhado e frio numa filmografia diversificada.

mary, eua, 2005
direção: abel ferrara
roteiro: abel ferrara scott pardo mario isabella simone lageoles
fotografia: stefano falivene
montagem: langdon page yuka ruell patrizio marone adam mcclelland fabio nunziata
elenco: juliette binoche matthew modine forest whitaker kate conner ettore d’alessandro stefania rocca elio germano marion cotillard heather graham marco leonardi luca lionello mario opinato emanuela iovannitti chiara picchi angelica di majo alex grazioli shanyn leigh

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