Difícil não ver como um comparativo com Infidelidade de 2002 sabendo que um é refilmagem do outro. A trama quase não muda, a ideia é a mesma. Assim como as consequências, alguns motivos e o sentimento melancólico. 

Mas enquanto o filme de Diane Lane de vinte anos atrás tem um niilismo mais carregado que questiona o que existe sob a redoma de perfeição da família nuclear norte-americana, A Mulher Infiel é um registro muito, bem, fiel e típico do seu contexto da França dos anos 1960. No enredo, que lida com essa perspectiva da posição da mulher como ser sexual e no questionamento da ideia de uma família perfeita. Mas principalmente no subtexto de classe que toma conta do filme de Chabrol. 

O filme é pouco sobre essa mulher infiel sexualizada e objetificada em tela de formas sutis (nas cenas de intimidade não sexual quando ela veste sua lingerie ou no banheiro fazendo as unhas enquadrada pela porta aberta) e muito sobre uma vivência burguesa num país culturalmente em ebulição. Num contexto histórico que se dava depois do maio de 1968, uma série de greves e protestos que marcaram uma renovação cultural e social na França. 

A obra pondera sobre o que existe sob a aparente perfeição de uma família rica que mora em Versailles (é claro) e é abalada pela sedução que vem do centro de Paris. Chabrol não vai tão profundamente na construção estética que chame tanta atenção para si, mas com um cinema minucioso a partir de uma visualidade clássica, ele sempre torna essa vidinha algo meio perturbador. 

É um longa que traz um retrato de um contexto histórico social consigo mas que também sintetiza um retrato de um cinema francês pós nouvelle vague, que depois daquela galera (Godard, Truffaut, Varda, o próprio Chabril, e cia) transfigurava suas revoluções estilísticas em filmes de narrativa mais quadrada.

Até existe aqui um jump cut aqui e outro ali (cortes no mesmo plano) que evidenciam um desconforto em cenas de certa tensão. Mas a ideia parece se desdobrar muito a partir de uma certa corrupção da decupagem clássica. 

Em planos de diálogo que invertem a lógica quando alternam a imagem para quem escuta em vez de quem fala, na forma como a casa é iluminada sempre numa luz quase etourada que cobre os personagens de pontos de luz que os elevam acima de nós mortais. Na própria locação que faz daquele lar um refúgio digno de um conto de fadas, ensolarado e cercado por natureza. 

Mais além, pode ser que eu esteja lendo demais aqui mas o filme é coberto de detalhes que lidam com o contraste entre um lugar e outro, como  o tamanho da TV nas duas casas e o que quer que isso signifique sob uma ótica de entretenimento popular da elite. 

No tratamento da trama, o filme ganha muito com o evidenciar de como o casal central aqui não tem muito a  ver, de como a diferença de idade e de comportamento se dá nos ambientes sociais como na cena da boate. Mesmo no jeito que isso evolui a partir da forma como ele acha que a própria esposa deve ser tratada. Embora, no frigir dos ovos, o filme perca muito quando se apoia no protagonismo dele e não dela.

Ainda que a força esteja muito mais numa ideia de um retrato social mais amplo que num desenrolar voltado para personagens específicos. Menos do que sobre uma mulhe infiel ou uma família, a obra é, no fim das contas, sobre a imagem da mulher francesa e o conceito de família. Assim como sobre a classe à qual eles pertencem.

la femme infidèle, frança, 1969
direção: claude chabrol
roteiro: claude chabrol
fotografia: jean rabier
montagem: jacques gaillard
elenco: stéphane audran michel bouquet maurice ronet louise rioton henri marteau françois moro-giafferi michel duchaussoy stéphane di napoli serge bento louise chevalier dominique zardi henri attal donatella turri

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