Brincando até mesmo com a expectativa de que o filme pularia de cabeça numa tradição bem típica do cinema de Verhoeven de expandir os limites morais, Benedetta e cria um baque logo de cara por aparentemente parecer mais comportado e mais confortável do que poderia ser. Ainda que seja muito mais “libertino” que qualquer coisa lançada hoje em dia por aí.

Indo além do tema, o filme também parece que usa dos aspectos exagerados e estilizados de algumas cenas como simples forma de extravasar o classicismo técnico do resto. Um drama histórico contido na maior parte do tempo, numa construção que só é quebrada pelos sonhos e devaneios de sua protagonista de vez em quando. 

Inclusive rejeitando qualquer circulação sobre o espectro que existe entre estes dois extremos. Trocando entre os seus dois lados sempre de forma brusca. Ora é comportado e banal, ora é exagerado e extravagante. Ora uma composição de cinema clássico para toda e qualquer cena, ora uma fotografia de contrastes estourados, CGI hiperrealista e sangue digital.

Com o tempo, essa lógica se revela como uma construção técnica muito deliberada no tratamento dessa trama. Uma história real sobre uma freira na idade média que mentiu sobre seus “estigmatas” (ferimentos que refletem os mesmos sofridos por Jesus Cristo na Bíblia). 

A obra se faz dessa dicotomia formal mas também como forma de ecoar as oposições que fazem parte do próprio enredo. A fé daquele convento e a política ao redor; a retidão do claustro e o desejo oculto; a dor da doença e o prazer do sexo; a beleza harmônica dos quadros e as pústulas e o sangue das chagas da peste negra.

Verhoeven se aproxima da história com essa destreza na construção clássica das cenas. Vindo dele, para quem é fã dele, parece algo como uma escolha estética irônica. Como se ele quisesse mostrar suas capacidades de fazer do filme um drama histórico completamente harmônico apesar de normalmente preferir fazer outras coisas.

A pegadinha aqui é que, irônico ou não, de propósito ou não, tanto a concepção austera classicista de drama de idade média quanto as cenas extravagantes dos sonhos delirantes da protagonista alcançam uma forma barroca que só faz demonstrar a capacidade e o talento de Verhoeven enquanto cineasta. 

Ainda que ele possa sacrificar nossa conexão com o enredo neste processo.

benedetta, frança, 2021
direção: paul verhoeven
roteiro: paul verhoeven david birke
fotografia: jeanne lapoirie
montagem: job ter burg
elenco: virginie efira charlotte rampling daphne patakia lambert wilson olivier rabourdin louise chevillotte hervé pierre clotilde courau david clavel guilaine londez gaëlle jantet justine bachelet lauriane riquet eléna plonka héloïse bresc jonathan couzinié vinciane millereau jérôme chappatte ewan ribard nicolas béguinot pedro radicic satya dusaugey nicolas gaspar benjamin penemaria antoine lelandais frédéric sauzay sophie breyer célia kaci alexia chardard sébastien chabane boris gillot léa lopez olga milshtein pascal le corre raphaël potier philippe saunier fabrice cals quentin d’hainaut

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