Tem o desconforto, obviamente. É um filme sobre angústia e ansiedade e aflição. Uma obra que deliberadamente nos coloca na pele de alguém que materializa essas sensações. Isso no campo de enredo, ao menos. 

Leda é atingida pelos encontros na praia pelo contato com pessoas que a lembram e a fazem reviver coisas que ela parecia ter aquietado. A montagem faz esse trabalho. Basta um olhar para a família distante na beira da praia e a cena do passado se concretiza. Reconstruindo aos poucos, como num filme paralelo, lembranças de uma escolha que é uma cicatriz pra ela. Uma culpa profunda não pelo que foi feito mas por não se arrepender do que foi feito. 

Até aí, já seria surpreendente o que Gyllenhaal faz num filme de estreia. Essa escolha por uma construção estética difícil e desconfortável que adapta de forma certeira o cerne do livro de Elena Ferrante. 

Mas a diretora vai além quando torna A Filha Perdida algo maior que esse ruminar de sensações incômodas. Quando o filme se monta para uma experiência de confusão mental da protagonista. Um descolamento da realidade ou dissonância cognitiva daquela situação. Como se ela estivesse sempre, como na cena inicial, flutuando num mar sem fim. 

Olivia Colman sempre acorda de chofre. Como se despertada de um pesadelo. As cenas nunca se conectam uma à outra com qualquer graciosidade. É como se os dias daquele feriado numa ilha grega fossem desmoronando num efeito dominó temporal. E, às vezes, a protagonista é lembrada bruscamente da realidade. (como a cena da pinha)

Tudo é meio complementado pelo comportamento da personagem. Antes e depois de fazer o que faz, é como se fosse uma fugitiva. Olhando para trás frequentemente, fugindo das luzes do farol, se trancando em casa, sozinha nos restaurantes, se escondendo atrás da pilha de livros. Tudo para não ter que lidar. Com o presente. Com as consequências. Com o passado. 

Em uma cena, caminhando numa feira de rua, o diálogo é entrecortado por imagens de Colman e Dakota Johnson com a boca fechada. Os lábios selados. Numa assincronia entre som e imagem. Coisa que sintetiza um dos aspectos estruturais aqui. O de que não só Leda não quer lidar com o que sente, como ela não também parece não saber. 

Uma linguista que busca nos estudos idiomáticos frios e na fuga das responsabilidades tentativas de descrever e de entender significados de sentimentos indefinidos e indefiníveis.

Por isso talvez os flashbacks encontrem um teto, quase um excesso. 

Enquanto eles são montados como respostas sentimentais ao presente, eles são completamente precisos. A menina chora na praia, as filhas dela criança choram em casa vinte anos antes. A soma de momentos que revela algo mais complexo que existe naquela relação familiar. 

Mais que isso, as cenas do passado são essenciais para entendermos a amplitude da mulher. Mais ainda, Jessie Buckley dá conta de nos revelar um outro lado de Leda. Menos assustada, mais vívida, mais vigorosa, intensa e inconsequente. 

Só que ao passar desse ponto e ao não trazerem nada além do que a informação do que foi que aconteceu naquele momento, os cortes para o passado se descolam um pouco do filme do presente. Como se a fluidez desmoronada da obra parasse de vez em quando para medir a intensidade das situações. Para explicar. Para esclarecer. Racionalização que vai de encontro ao aspecto sensorial do resto.

Acontece pouco disso. Ainda bem. E não deixa de ser um filme surpreendente de uma diretora principiante. 

Ainda mais tendo visto recentemente o trabalho de Halle Berry e de Rebecca Hall neste mesmo ano. É notável o quanto A Filha Perdida traz consigo todas as sensações que tenta trazer. Maggie tem uma ideia sobre seu filme. E ela faz de tudo para traduzir isso. Coisa que não se vê nem em muitos veteranos por aí.

the lost daughter, eua, 2021
direção: Maggie Gyllenhaal
roteiro: Maggie Gyllenhaal, Elena Ferrante
fotografia: Hélène Louvart
montagem: Affonso Gonçalves
elenco: Olivia Colman Jessie Buckley Dakota Johnson Ed Harris Peter Sarsgaard Paul Mescal Dagmara Domińczyk Alba Rohrwacher Jack Farthing Oliver Jackson-Cohen Panos Koronis Robyn Elwell Ellie Mae Blake Athena Martin Anderson Alexandros Mylonas Nikos Poursanidis Konstantinos Samaa Emmanouela Zacharopoulou Alma Stansil Daniela Babek Ellie James Isabelle Della-Porta Vassilis Koukalani Spyros Maragoudakis

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