Tem uma potência na elegância clássica com a qual o diretor adapta a história. É tudo tão minucioso formalmente que mal se percebe sem uma reflexão bem propositada, coisas como o uso da razão de aspecto retangular ampla do cinemascope para um filme centrado em diálogos internos de uma mansão e a ostensiva presença de cenas com uma profundidade de campo que parece invocar aparições para que elas venham para o fundo das cenas. 

Deve ter algo pioneiro nessa escolha. No sentido de vir antes mas também no de desbravar essa coisa que veio a se tornar tão comum no horror feito depois disso. Coisas óbvias que um dia não foram óbvias como jogar com o cenário amplo e profundo num filme que trata de aparições fantasmagóricas. 

A história obscena, a cargo do romance de Henry James, traz ainda mais essa carga de um filme que parece um clássico inglês tradicional na primeira camada mas que nas suas profundidades é muito mais moderno e safado do que parece ser. 

Deborah Kerr materializa tudo nos olhares. Um papel de donzela indefesa que seria ingrato para qualquer atriz contemporânea mas que ela concretiza como o maior centro de suspense e da conexão do espectador com, de fato, uma donzela indefesa. 

Como se a presença dela naquelas terras amaldiçoadas por si só já fosse responsável por um bom bocado do suspense.

Em um momento, é como um agouro que a menina fala “olha, que linda borboleta que foi pega nessa teia de aranha” enquanto brinca no jardim. 

Quando a aparição fantasmagórica real vem, é de um impacto que quase rompe com essa superfície cosmética aparentemente comportada. Uma imagem de horror que parece ser a síntese do que a palavra significa. 

Com certeza, dos maiores filmes do estilo. Daqueles nos quais todos os outros se inspiram. Conscientemente ou não.

the innocents, Inglaterra, 1961
direção: Jack Clayton
roteiro: Truman Capote, William Archibald
fotografia: Freddie Francis
montagem: Jim Clark
elenco: Deborah Kerr Peter Wyngarde Megs Jenkins Michael Redgrave Martin Stephens Pamela Franklin Clytie Jessop Isla Cameron Eric Woodburn

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