Sem ter visto o original recentemente pra comparar (que sinceramente não é um dos meus musicais clássicos preferidos), só resta colocar essa versão de Amor, sublime amor lado a lado com o que tem sido feito no gênero nas incontáveis tentativas meio desesperadas de Hollywood de renovar a era de ouro dos musicais. E o que Spielberg faz aqui é muito, muito superior a qualquer um desses projetos do cinema americano desde, sei lá… Moulin Rouge? 

Pela ambientação, não deu pra não pensar na decepção que foi In the heights (“Em um bairro de Nova York”). Um romance sobre gentrificação e sonho americano ambientado num período de renovação da metrópole por meio da expulsão e do abandono de um bairro imigrante. West side story é tudo o que o filme de John M Cho tenta e falha ser.

Um retrato da América a partir das minorias que a formam, uma história romântica superficial como desculpa para explorar estes cenários e as ruínas literais e figuradas de um pedaço periférico da metrópole mais rica do planeta. Mais que isso, é um filme absolutamente sensível, contemporâneo, moderno e representativo tematicamente sem nunca precisar esgarçar aspectos que definem a ambientação numa época insensível, atrasada, conservadora, violenta em que vivem os personagens.

Ele supera o original nisso, mas mesmo que não mudasse nada ou mesmo que olhasse com olhos conservadores para os imigrantes ao redor dos quais o filme se monta, continuaria superando. Porque se lá (que ainda assim é um grande filme, vale esclarecer) Robert Wise e Jerome Robins eternizavam em tela um clássico dos palcos a partir das mise-en-scènes teatrais e montando tudo ao redor das coreografias espetaculares, o que Spielberg faz aqui é o mais puro cinema.

Planos amplos, quadros de tirar o fôlego, um desenho de som que arrepia, uma iluminação preciosista do diretor de fotografia de Janusz Kamiński que se equilibra com perfeição entre os aspectos digitais deste visual e a palpabilidade dos cenários. Sombras alongadas, silhuetas de prédios em ruínas, os cercados de construção e de prisão entre a câmera e os personagens que por si contam histórias infinitamente mais profundas e complexas que a trama dá conta. 

Aliás, a julgar pelo enredo em si – uma versão de Romeu e Julieta entre gangues rivais de famílias imigrantes, uma branca e outra portoriquenha – não dá pra considerar Amor, sublime amor algo muito vanguardista ou particularmente comovente. O trabalho aqui é o de descascar mais ainda essa história para encontrar um núcleo de uma simplicidade emocional onde estão alguns sentimentos mais reconhecíveis e identificáveis.

A paixão juvenil inescapável de Maria (libidinosa até), o senso de identidade tão caro de quem todo dia vive como representação de uma cultura anexada por outra, o orgulho tóxico de quem vê na violência a única forma de proteger a família. A dor da culpa de alguém que já pagou o preço de quase tirar uma vida. 

Ansel Elgort não necessariamente dá conta desse último. É um protagonista por pura formalidade, porque tudo o que tem além dele é muito mais interessante. Mas ao menos ele canta direitinho e, mais importante, é um veículo para a presença… bem… ‘sublime’, de Rachel Zegler interpretando Maria. 

Ela, e os personagens ligados a ela, elevam o filme a cada aparição. Mesmo que todos operem sob essa ideia de estereótipos latinos. O homem brabo Bernardo, a mulher vocalmente, francamente, distintamente emancipada de Anita, a romântica sonhadora de Maria.

A lógica de reduzir a amplitude de enredo aos traços mais puros de sentimentos é sintetizada no aspecto musical. Menos chamativo e complexo que o original quando se pensa em coreografia, mas não menos apoteótico em seus números, o filme sempre cresce quando usa das canções (acho que todas idênticas às originais) como ferramental narrativo.

E de tanto crescer, deve ser o local mais adequado para a mão pesada de Spielberg nos últimos quinze anos. Daqueles casos do projeto perfeito pro diretor perfeito.

West side story, EUA, 2021
direção: Steven Spielberg
roteiro: Tony Kushner
fotografia: Janusz Kaminski
montagem: Michael Kahn, Sarah Broshar
elenco: Ansel Elgort Rachel Zegler Rita Moreno Ariana DeBose David Alvarez Corey Stoll Brian d’Arcy James Josh Andrés Rivera Mike Faist Ana Isabelle Paloma Garcia-Lee Maddie Ziegler Andrea Burns Kyle Allen Curtiss Cook Jamie Harris Ezra Menas Sean Harrison Jones Patrick Higgins Julius Anthony Rubio Ricardo Zayas Sebastian Serra Carlos Sánchez Falú Jamila Velazquez Talia Ryder Jamiyka Jones Michael P.J. Marston Atif Lanier Cameron Sawyer Ben Cook Gabriela Soto Tanairi Sade Vazquez Chryssie Whitehead Eloise Kropp Michael Ronca Ricky Ubeda Andrei Chagas Kyle Coffman

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