Como os dois personagens que protagonizam o filme, Cenas de um casamento precisa de tempo e espaço. O tempo estendido do filme de quase três horas, o tempo que não enxergamos dos saltos entre um capítulo e outro e os literais espaços dos cenários que enclausuram os dois, articulando o minimalismo estético que guia a obra. 

Para um filme pautado em discussões, pode parecer equivocado optar pelos planos longos, pela trilha quase ausente, pela longa duração, mas Bergman não parece se importar. E não é porque ele tenha algum impulso rebelde, mas porque confia no poder de um classicismo teatral que relega tudo aos atores e à mise-en-scène mais simples possível para trabalhar o texto. 

Isso quase sem vozes elevadas, quase sem momentos de catarse. Tudo levado pelo realismo e a formalidade da situação de um relacionamento que acaba aos poucos.

Coisas acontecem no desenrolar do enredo. Traição, abandono, ida, volta. Problemas com filhos, com dinheiro, com trabalho. Mas a gente nunca vê isso. O que vemos é a parte profunda do iceberg. Deixando a pontinha acima da superfície pra lá. 

É o suficiente para enxergarmos tudo. 

Johan finge ser forte e seguro. Marianne finge ser mais frágil do que é. Ele míngua com o afastamento, ela se engrandece. Um casamento alicerçado numa codependência fatal. Coisa carregada com maestria por ambos os atores mas que Liv Ullmann transfigura num dos melhores momentos de uma carreira feita de momentos grandiosos. 

(o que mais me pega são as fragilidades que ela imprime nos detalhes: o ajeitar dos óculos, a pausa na mordida na torrada, o olhar para o nada quando diz algo difícil)

É um filme além disso muito representativo do que eventualmente é chamado de “bergmaniano”. Profundamente humanista. Feito com um esmero técnico que paradoxalmente faz tudo parecer fácil e natural. 

Que faz as escolhas formais soarem quase automáticas e que são surpreendentemente eficientes se não percebermos o trabalho que existe por trás de cada momento.

Quando juntos, por exemplo, cada plano e contraplano de diálogo captura os dois: um em relação ao outro que fala, que escuta; mas quando não estão, a decupagem isola os dois em planos separados.

A comparação que me vem à tona é com Persona. Pela estrutura de se fazer a partir dos encontros entre duas pessoas principalmente. Lá, tudo se encaixa de forma a materializar uma das obras-primas mais bem esteticamente equilibradas do cinema enquanto aqui o peso das relações se faz presente. 

Pensar que a obra foi idealizada como minissérie antes de qualquer coisa faz sentido. 

Porque por mais essenciais que os capítulos sejam aqui e por mais que eles consigam dar conta da passagem do tempo, consumir essa experiência num impacto só se prova algo emocionalmente extenuante. 

No bom sentido. 

Scener ur ett äktenskap, Suécia, 1974
direção: Ingmar Bergman
roteiro: Ingmar Bergman
fotografia: Sven Kykvist
montagem: Siv Ludgren
elenco: Liv Ullmann Erland Josephson Bibi Andersson Jan Malmsjö Gunnel Lindblom Wenche Foss Bertil Norström Anita Wall Rossana Mariano Lena Bergman Ingmar Bergman Barbro Hiort af Ornäs

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