45ª Mostra internacional de cinema de São Paulo 2021

Será que romenos se identificam tanto no cinema brasileiro como a gente se identifica no cinema romeno? 

Radu Jude faz um filme de aparente anarquia, de uma loucura estrutural e de um exagero temático a partir de um causo que chacoalha o vespeiro conservador que é uma reunião de pais em uma escola particular de Bucareste. A comédia formalista que é a longa cena final é um deleite de diálogos de pessoas horríveis. 

Chega a nos enganar fazendo pensar nesse auge do filme que o melhor está ali. Mas o desfecho não seria nada sem os capítulos anteriores. O vídeo de sexo explícido amador meio desconfortável que abre o longa, a feiura das tomadas longas que retratam a cidade, as verdades incômodas que compõem o capítulo do meio. 

O que essa estrutura tríptica demonstra, contudo, é um controle muito fino do cineasta enquanto maestro de cada um dos atos dessa orquestra. Três capítulos. Um para nos apresentar ao lado abstrato e sensorial de viver naquela cidade, um para nos dar uma lição de história e de referências sociais sobre uma nação muito particular e outro para criar alguma dramaturgia a partir desses dois. 

Na abertura, a protagonista anda pela cidade. Ela caminha, caminha, caminha a ponto de nos perguntarmos mais de uma vez pra onde ela vai. A estética constrói um realismo pitoresco daquele lugar. Filmada na rua num estilo realista bem bruto e com uma fotografia chapada. 

A câmera passeia, se distrai, é pega por acontecimentos banais enquanto “sem querer” cria uma imagem social bem clara quando nos faz perceber a Romênia como um antro do capitalismo emergente dividido entre um inferno de logotipos, igrejas e homenagens a ditadores passados. (Brasil?)

No capítulo central, uma colagem que (com a mesma aparência superficial de bagunça e falta de rumo) coloca no centro da experiência a complicação da história de um país desconjuntado e caótico entre suas experiências comunistas e fascistas do século XX. Deixando espaço ainda para um punhado de sabedorias filosóficas que costuram o mesmo tom cômico que cobre a obra toda. (“Folclore: testemunho da imbecilidade de um povo”)

A discussão que encerra o longa coroa tudo. Amadurece a discussão, finaliza o retrato das hipocrisias do país. E ainda que ela se faça de uma estética muito mais banal do que as partes anteriores, a própria divisão e construção para capítulo que se volta para aquela conversa mais que justifica a mudança. 

Fora que não dá pra ignorar todas as formas que o diretor consegue comunicar com o que está no fundo da imagem.

Babardeala cu bucluc sau porno balamuc, Romênia, 2021
direção: Radu Jude
roteiro: Radu Jude
fotografia: Marius Panduru
montagem: Catalin Cristutiu
elenco: Katia Pascariu Claudia Ieremia Olimpia Malai Nicodim Ungureanu Alexandru Potocean Andi Vasluianu Oana Maria Zaharia Gabriel Spahiu Florin Petrescu Alex Bogdan Kristina Cepraga Ana Ciontea Ion Dichiseanu Paul Dunca Adrian Enache Luminița Erga Tudorel Filimon Alexandru Georgescu Silviu Gherman Ilinca Hărnuț Nicoleta Lefter Ilinca Manolache Daniela Ionita Marcu Marcela Motoc Petra Nesvačilová Șerban Pavlu Dan Radulescu Alina Serban Ada Solomon Ştefan Steel Marina Voica Dana Voicu

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