O que mais chama atenção no filme é como ele é direto nessa caracterização de homens e mulheres. Na inversão de papéis que vem com o enredo naturalmente. Em vez dos anti heróis que cruzam a América e deixam um bocado de violência no caminho, duas anti heroínas; em vez de uma femme fatale que aplica um golpe, um “homme fatale” interpretado por um Brad Pitt na flor da idade.

Não é um filme feminista por uma sensibilidade na criação das personagens mais tem uma carga feminista que vem “sem querer” num exercício de inverter os aspectos do que o cinema (e a cultura em geral, convenhamos) em décadas havia construído como normalidade. A subversão não vem acompanhada de uma filosofia muito clara ou de uma crítica a qualquer coisa. Mas isso tudo surge da simplicidade dessa ideia de inversão.

Afinal não são dois caras num conversível tocando o terror. São duas mulheres. E, com isso, é inescapável para o espectador da época ou até para o espectador atual incutir nessa relação com a arte tudo o que não é dito mas que nem precisa ser dito. Porque essas duas mulheres, por serem duas mulheres, viveram uma vida muito diferente de dois homens daquela geração, daquele contexto. 

Num diálogo aqui e um momento ali até escapa algum raciocínio mais evidente sobre o tema (a cena do caminhoneiro, por exemplo), mas o que Scott faz de melhor aqui é não oferecer qualquer tratamento diferenciado para aquelas figuras. 

Pode ser que isso seja proposital. Pode ser que isso seja fruto dele simplesmente não ter pensado no assunto. Mas o fato é que não importa muito o que ele queria. É um filme que traz na bagagem temas de gênero que se articulam quase sozinhos. 

De alguma forma me lembrou de Wanda, clássico de Barbara Loden. Um road movie criminoso protagonizado por uma dona de casa muito mais intimista e pesado no seu tratamento melancólico do arco de sua personagem. O que tem de diferente aqui (e que faz sentido pensando no que esses diretores homens como Ridley Scott e James Cameron pensavam quando buscavam a força de personagens femininas) é uma certa ignorância bem intencionada. 

Como se eles não soubessem ou não entendessem as personagens femininas (que muitas vezes vêm de roteiristas mulheres) e consigam alcançar o seu limite de progressismo ao não dar a elas nenhum tratamento diferente do que o que dariam para os personagens homens. Scott já tinha isso no currículo com Ripley em Alien, cujo gênero pouco importa (ao menos no primeiro filme), então ele meio que repete isso.

Fora as questões de violência sexual e até mesmo a da articulação de certos pontos de trama no desenrolar, o diretor parece enxergar em Thelma e Louise uma dupla básica de personagens de aventura. Alcança seu auge feministo ao não sexualizá-las e ao fazer delas equivalentes a uma dupla masculina.

O que o filme tem de grandioso e de importante – mais como símbolo cultural e menos como cinema por si – vem desse aspecto não dito que só quem assiste para pra pensar. Ainda mais pensando nesse contexto.

Por serem mulheres, tudo se torna mais impressionante. Por serem mulheres (e pelo poder da atuação de Davis e Sarandon) os sentimentos das personagens se sobressaem mais. Por serem mulheres, a resolução de tudo se torna muito mais amarga e muito mais impactante

E o mais revolucionário da direção de Ridley Scott pra fazer com que isso aconteça é tratá-las como iguais.

thelma and louise, EUA, 1991
direção: ridley scott
roteiro: Callie Khouri
elenco: Geena Davis Susan Sarandon Harvey Keitel Michael Madsen Christopher McDonald Brad Pitt Stephen Tobolowsky Timothy Carhart Lucinda Jenney Jason Beghe Sonny Carl Davis Ken Swofford Shelly Desai Carol Mansell Stephen Polk Rob Roy Fitzgerald Jack Lindine Michael Delman Kristel L. Rose Noel L. Walcott III Marco St. John Gregory J. Barnett Robert ‘Bobby Z’ Zajonc Charlie Sexton
fotografia: Adrian Biddle
montagem: Thom Noble

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