É tudo tão rudimentar e tosco que é meio difícil acreditar que a ideia é que fosse uma das maiores bilheterias da época. Grande astro, inspiração em história em quadrinhos, ficção científica com cenas caras de ação etc. 

A trama por si é tosca. Nos apresenta a um conceito que materializa, concretiza naquele universo, um espelho de como é o nosso funcionamento enquanto sociedade no mundo digital. A ideia da aparência, de como se portar, de como parecer ser fora da vergonha da nossa casa. Tudo à mercê de uma empresa. 

Assistindo, algumas semanas atrás, pensei em Jeff Bezos mas não dá para não imaginar Zuckerberg como o análogo mais próximo ao vilão aqui. Até porque, enquanto escrevo, o mundo digital está caótico justamente por conta da queda dos serviços do Facebook. Instagram, Whatsapp e o próprio Facebook como uma das redes neste cenário. 

Como fonte de reflexão e de filosofia sobre as nossas relações na arena digital, a própria premissa é bem incrível. 

Porque assim como no filme (mas sem a parte robótica material) todo mundo levanta todo dia e opera o seu eu que na verdade é uma versão construída. Uma cópia modificada nossa. Pra vender um bem estar falso, para navegar em espaços aparentemente sem limitações etc.

Mas o filme está pouco interessado nisso. Não questiona para além do discurso de vilão de James Bond que vai acontecer no final. Porque o que a obra quer mesmo é se fazer de um suspense de ação futurista.

A questão, então, é menos a escolha de onde se apoiar e mais a fragilidade desse apoio. 

Isto é, Jonathan Mostow quer fazer suspense com um enredo que parece escrito por um algoritmo de tão rudimentar e previsível; quer fazer ação com um bocado de sequências genéricas; quer chocar com revelações que, quando não são decepcionantes, são tão óbvias que não conseguem ser reviravoltas.

Se dá pra pensar em algo que o filme faz bem, a única coisa que vem na mente é o aspecto perturbador daquele Bruce Willis de peruca. Não porque o topetinho é estranhíssimo num ator que a gente vê careca há décadas, mas porque é uma articulação dos aspectos visuais dessa estética. 

Ele, os colegas, a esposa, parecem versões ambulantes tridimensionais de filtros de maquiagem coreanos do instagram ou do snapchat. 

Com os rostos de alabastro, perfeitos, lisos, sem poros, rugas ou cicatrizes, todos parecem manequins interagindo. O que de alguma forma traz à tona o subtexto deixado de lado da nossa existência falsa na rede. 

Pena que é literalmente só nesse aspecto que o filme consegue articular alguma coisa.

Substitutos (Surrogates, Jonathan Mostow EUA, 2009)
Roteiro: John D. Brancato Michael Ferris

Elenco: Bruce Willis Radha Mitchell Rosamund Pike James Cromwell Ving Rhames Helena Mattsson Boris Kodjoe Ian Novick Devin Ratray Jack Noseworthy Danny F. Smith Jeffrey De Serrano Michael Cudlitz Trevor Donovan Jennifer Alden Michael Philip James Francis Ginty Andrew Haserlat Justin Goodrich Rachel Sterling Meta Golding Taylor Cole Jordan Belfi J.L. Highsmith Lisa Hernandez Kirk Hawkins Nicholas Purcell Max Murphy Victor Webster Valerie Azlynn David Klefeker Chad Williams Mike Randy Michael DeMello Ron Murphy David Conley Bruce-Robert Serafin Cody Christian Todd Cahoon Ella Thomas Gabriel Olds Eamon Brooks Rick Malambri Anya Monzikova Taylar Eliza Melissa Barker
Fotografia: Oliver Wood
Montagem: Kevin Stitt

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