Da mesma forma que o filme não parece “acontecer” de verdade até a chegada dos personagens naquele local específico (a praia rochosa), quando ele sai de lá, tudo soa como um epílogo com ares de moral da história. 

Como se o próprio Shyamalan separasse os espectadores da cosmologia daquele “miolo” e fizesse a pergunta: vale a pena? Você concorda? Você faria o mesmo? Coisa que acaba remetendo tanto aos episódios de séries como Além da Imaginação quanto às fábulas da antiguidade. (dois tipos de narrativas que devem ser as principais referências do cinema dele)

Não que a abertura e o fechamento não se conectem com a questão central aqui. A tragédia grega sobre o tempo e a maldição ao qual esses personagens são submetidos. Por mais que sejam momentos que só existem como fonte e informação, é com base neles que os aspectos emocionais se desdobram. 

Porque o que tem de melhor aqui é menos a ideia do “e se isso acontecesse?” e mais a exploração dos aspectos de lenda que essa obra evidencia. 

A concepção destes personagens num ambiente de aparente neutralidade onde “coisas estranhas acontecem” remete aos trabalhos mais experimentais do diretor, como A Dama na Água. Menos que pessoas eles são arquétipos. Veículos para perspectivas sobre este passar do tempo. Receptáculos (ou cobaias) para uma trama. Como os personagens de parábolas e de mitos que serviram de razão de existir da civilização humana.

A superficialidade dos diálogos um com o outro vai então agir tanto como veículo metalinguístico do que as pessoas representam (“você trabalha em um museu: você só pensa no passado”) quanto como sínteses agourentas sobre o tema com o qual o filme opera (“Nós precisamos sair… [o tempo] vai ser muito curto se a gente não tentar”) Embora vez ou outra o texto escorregue numa exposição muito óbvia (como a questão da ferrugem)

Aliás, o filme é feito de momentos criados para refletir sobre o subtexto e de paradoxos sobre isso. A ideia de que é preciso gastar o pouco tempo que se tem naquela bolha para fugir dali e, assim, ter mais tempo. O horror da obra opera muito fortemente sobre isso e também sobre os efeitos perturbadores de quem se vê prisioneiro daquele horror. 

O cenário se desdobra como uma articulação desse aspecto de histórias imemoriais. Lendas cuja origem se desconhece. Sabedorias passadas por oralidade. As pedras, o mar e a areia se desdobram como sinais naturais de ancestralidade. Todos frutos de erosões primitivas. Rochas, ossos, um mar estéril, cânions, cavernas, metais enferrujados dos antepassados daquele lugar.  

(nesse sentido a própria comunicação codificada entre as crianças, pictórica, remete às primeiras escritas humanas)

Esteticamente, Shyamalan cria soluções a partir de cenas que se resolvem em planos únicos e muito precisos, como é uma marca clara de seu cinema. Desde o princípio, usando os reflexos do quarto do hotel ou da janela do micro-ônibus que leva as pessoas até o resort. Mas além disso, ele concebe uma gramática muito específica que se dá a partir de certos movimentos laterais da câmera e de ângulos que deliberadamente ocultam parte do que acontece.

É uma parcialidade de informação e de tela que ecoa a confusão daqueles personagens e que nos mantém no escuro enquanto espectadores. Junto dos movimentos, é como se o filme nos afastasse daquele grupo e daquela situação. Como se para reforçar a ideia de tudo como algo “visto de fora”. 

Num eterno pêndulo da direita para esquerda e depois da esquerda para a direita. Organizando uma dimensão de linhas temporais e reforçando uma indiferença brutal do passar do tempo para com qualquer forma de vida.

Tudo isso enquanto, de alguma forma, o filme consegue criar momentos específicos extremamente perturbadores. Como uma cena com um bebê, onde o nascimento, a vida e a morte se dão antes mesmo que a câmera consiga chegar lá. Numa ponderação muito simples e muito incisiva do tempo que se vai. Ou um momento assustador numa caverna escura, onde uma figura que parece uma bruxa saída de uma lenda grega se deforma com cada passo e cada movimentação, numa consolidação do aspecto mitológico da obra.

Não é, então, que o início e o fim que parecem descolados desse conto central, sejam compensados em qualidade pelo cerne do filme. 

É como se eles, na realidade, existam de propósito como articulações sóbrias ao redor do que ocorre ali. Proposições ao redor de uma aventura. Racionalizações e lições de moral que replicam a experiência imemorial das histórias compartilhadas ao redor do fogo pelos nossos antepassados.

Tempo (Old, M Nighr Shyamalan, EUA, 2021)
Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: Gael García Bernal Vicky Krieps Rufus Sewell Alex Wolff Thomasin McKenzie Abbey Lee Nikki Amuka-Bird Ken Leung Eliza Scanlen Aaron Pierre Embeth Davidtz Emun Elliott Alexa Swinton Gustaf Hammarsten Kathleen Chalfant Francesca Eastwood Nolan River Luca Faustino Rodriguez Mikaya Fisher Kailen Jude M. Night Shyamalan Matthew Shear Daniel Ison Jeffrey Holsman Margaux Da Silva John Twohy Kylie Begley
Fotografia: Mike Gioulakis
Montagem: Brett M Reed

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