Os filmes da série Velozes e Furiosos parecem ter uma certa dificuldade de encontrar o equilíbrio perfeito entre o lado mais puro de um cinema de atrações, o dramalhão mais folhetinesco das tramas e uma pretensa seriedade que é o que garante um aspecto “camp” ou “vulgar” do resultado final. 

Sem contar com algumas boas exceções, ou eles soam sérios demais como os primeiros, ou pesados demais nas questões sobre família e do melodrama da irmandade entre os componentes desse grupo de criminosos, como é o caso dos dois últimos. Este nono, entretanto, parece cair para um lado que ainda não havia se mostrado muito presente. 

Que é o da autoconsciência. Pensando em roteiro, principalmente: existe uma tentativa intencional de ser a figura mitológica do “filme pra desligar o cérebro” ou coisa equivalente.

O problema principal, entretanto, é que enquanto isso vem à tona como uma desculpa para justificar qualquer coisa, a estrutura ainda se apoia muito em algumas ideias melodramáticas mais “sinceras”. Ideias estas que, não fosse pela camada superficial de humor muito tolo e metalinguístico de alguns momentos e diálogos, poderiam resultar em alguma coisa mais convincente.

Então, é curioso pensar dentro da série que o problema é que o filme não se leva a sério o suficiente, sendo que os grandes momentos da saga justamente vêm dos capítulos mais absurdos de ação: Tokyo e Rio. Ainda mais pensando que o diretor destes dois é o mesmíssimo que volta em Fast Nine.

Pensando no cerne, o cineasta consegue, depois de ter feito de tudo na franquia (ele dirigiu metade dos outros oito filmes) usar dessa obra como a de uma construção ponderada e uma ressignificação do papel de Dom: o herói da franquia que sempre parecia se mover pelos arredores dos outros. Antes e depois da morte de Paul Walker e da despedida do personagem Brian. 

Não só ele é o foco pelas relações familiares (surge para ele um irmão como antagonista), mas o filme se faz a partir da ideia clássica de “voltar ou não voltar à ativa”. Coisa que acontece com todo herói de ação de série que dura mais que 3, 4 filmes. É a primeira vez, aliás, desde a despedida de Paul Walker, que a série se volta para a lida com a psicologia de Toretto de forma mais direta e aprofundada. 

O filme perde, então, um bocado dos monólogos sobre família acima de tudo e traz para seu personagem um fortalecimento da ideia do “Deus acima de todos”. Falando diversas vezes ao filho adotivo e aos companheiros. Isso sem contar uma experiência de quase morte (mais uma) e a quantidade de flashbacks dele jovem que costuram o filme. 

Tem algo de muito puro nisso. Mesmo que por vezes a graça seja justamente a artificialidade desse dramalhão e a falta de talento dramático da atuação de Vin Diesel. De novo. É legal até certo ponto porque é rudimentar. Tosco. Mas tem um coração que vem pela sinceridade dessa tentativa. 

Lin sabe disso e constrói os aspectos dramáticos ao redor disso. Dá peso e espaço para os irmãos confrontarem suas diferenças, seus traumas passados. Filma drama como drama, ação como ação, comédia como comédia. Um uso de classicismo que parece maneirismo para algum desavisado. Um cinema romântico.

O ruído vem, surpresa, da autoconsciência mercadológica da série. Do alívio cômico que nem alivia e nem é engraçado, desdobrado por um roteiro que pesa demais a mão num sem fim de comentários jocosos da dupla responsável por isso dentro da franquia. “Cara, nós somos indestrutíveis, haha” e coisa do gênero…

Parece uma camada solta, uma peça mal ajambrada que vem pendurada em todo resto. 

Uma fuga desnecessária da trama principal que está ali pra dar espaço para um bocado de sacadinhas sobre como tudo é absurdo, sobre como eles são invencíveis, sobre como tudo é divertido e como esse filme não é pra ser levado a sério. 

Mal dá pra acreditar que o diretor responsável pelas grandes cenas de perseguição, pela ação bem decente e pelas relações dramáticas muito esforçadas entre os personagens é o mesmo responsável pela interação tosca entre Tyrese Gibson e Ludacris. 

Isso enquanto o filme conciso que tem por baixo de tudo traz um número mais que suficiente de comédia bem inserida. As cenas com Helen Mirren e da personagem Hacker dirigindo um caminhão, o uso completamente absurdo mas completamente divertido de ímãs super poderosos nos grandes set pieces de ação e, sim, alguns diálogos bem colocados que comentam muito organicamente alguns clichês e alguns aspectos culturais. 

(“Ninguém avisou? Babacas ricos e mimados governam o mundo”)

Por outro lado, toda a camada de “nós somos indestrutíveis” e “olha, estamos num foguete, não faz sentido, hahaha” acabam se tornando algo que arrasta ainda mais o peso das quase duas horas e meia do filme. Mirando num comentário sobre como a potência das sensações no cinema pode nos conectar com histórias absurdas mas acertando num desmonte da nossa relação com a obra.

E se os comentários sem graça não fossem suficientes, eles ainda fazem com que o melhor momento de ação do filme seja constantemente interrompido pela piada que foi longe demais.

(tão longe que extrapolou a atmosfera terrestre)

Velozes e furiosos 9 (F9, Justin Lin, EUA, 2021)
Roteiro: Justin Lin Daniel Casey Alfredo Botello

Elenco: Vin Diesel Michelle Rodriguez Jordana Brewster Tyrese Gibson Ludacris Nathalie Emmanuel John Cena Charlize Theron Sung Kang Helen Mirren Kurt Russell Lucas Black Shad Moss Anna Sawai Vincent Sinclair Diesel Finn Cole Thue Ersted Rasmussen Don Omar Shea Whigham Vinnie Bennett J. D. Pardo Michael Rooker Jim Parrack Jason Tobin Cardi B Lex Elle Krzysztof Mardula Amber Sienna Martyn Ford Albert Giannitelli Ozuna Méghane De Croock Bad Bunny Siena Agudong Isaac Holtane Immanuel Holtane Azia Dinea Hale Juju Zhang Karson Kern Igby Rigney Sophia Tatum Francis Ngannou Cered Oqwe Lin Bill Simmons Luka Hays Jimmy Lin Gal Gadot Jason Statham
Fotografia: Stephen F. Windon
Montagem: Kelly Matsumoto Greg D’Auria Dylan Highsmith

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