É o magnus opus do cinema de ação de Bigelow. Mesmo que seja muito mais que isso, é onde o controle absoluto sobre esses personagens quebrados que ela tanto gosta vai desembocar. O tema, o roteiro, a trama, no contexto explosivo de violência policial no qual o filme é lançado, se tornam os veículos ideais para essa frieza da direção dela.

Se recentemente ela vem tratando de peso político e no início de carreira de personagens tomados por um romantismo e por um hedonismo, Estranhos Prazeres consegue fazer um equilíbrio perfeito entre esses lados. 

É brutal tematicamente. Mídia, desejo, indústria, estado policialesco, fascismo mal disfarçado como cenários para um homem de coração partido que encontra na vivência niilista de cafetão de conteúdo digital uma fuga para a lida com sua realidade.

Sem coragem de seguir em frente, de tentar escapar dos ciclos viciosos que o atormentam, ele se esconde atrás da ideia muito concreta de viver e de reviver o passado infinitas vezes. 

O aspecto de um neo noir cibernético com luzes noturnas que são um tormento é uma divisão visual muito clara. Ao mesmo tempo muito referente e representante de um estilo e de um subgênero clássico (seres noturnos, contraste, luz, sombra e etc) e também enquanto expressão narrativa (o passado é claro e solar, o presente um pesadelo de luzes, neon, sirenes que constroem um estado policial constante).

Uma Los Angeles fictícia construída a partir do lado mais aterrorizante e desagradável da Los Angeles da vida real.

A questão tecnológica – um dispositivo capaz de recriar memórias e sensações com perfeição na cabeça de qualquer um – vem pelos arredores, em pedaços de reportagens de TV e conversas de bar. Criada pela polícia, adotada pela marginalidade, criminalizada e tornada desculpa para a violência. É uma representação de como a sociedade doentia pode distorcer tudo mas também faz as vezes de alegoria para qualquer coisa de drogas a armas.

Visto pelo olhar de hoje, faz pensar no tratamento das personagens femininas. Dá vontade que a sidekick do detetive noir clássico de Ralph Fiennes vivida por Angela Bassett fosse mais que uma coadjuvante. Porque ela ilumina o filme a cada momento que surge. 

Embora dê pra entender que existe uma ideia clara do filme ser muito ligado a um desenvolvimento do arco angustiado desse protagonista.

O que mais chama atenção pensando na discussão evoluída de hoje do extermínio perpetrado pela LAPD, entretanto, é a resolução. O desfecho parece não ir até o fim. Dando crédito demais às instituições. 

Pelo que o longa se constrói, parece que o final seria explosivo, colocaria abaixo um sistema, explodiria a bomba relógio. Mas nenhuma obra de arte é atemporal. Então a gente aceita que foi isso que deu pra fazer aqui, dentro dessa indústria, com essa cabeça dessa época.

Estranhos prazeres (Strange Days, Kathryn Bigelow)
Roteiro: James Cameron Jay Cocks

Elenco: Ralph Fiennes Angela Bassett Tom Sizemore Juliette Lewis Kelly Hu Vincent D’Onofrio William Fichtner Michael Wincott Glenn Plummer Brigitte Bako Richard Edson Josef Sommer Joe Urla Michael Jace Brandon Hammond James Acheson Louise LeCavalier David Carrera Jim Ishida Todd Graff Ted Haler Rio Hackford Brook Susan Parker Dex Elliott Sanders David Packer Paulo Tocha Art Chudabala Ray Chang Chris Douridas Lisa Picotte Kylie Ireland Dru Berrymore Stefan Arngrim Agustin Rodriguez Honey Labrador
Fotografia: Matthew F. Leonetti
Montagem: Howard E. Smith

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