Deve ser um dos trabalhos mais esteticamente radicais de Coppola, uma das adaptações mais radicais de literatura clássica e ao mesmo tempo uma das versões da lenda do vampiro que mais distorce o gênero. Mas enquanto isso, o que surpreende é o quão óbvias e conscientes são estas escolhas. Literatura britânica vitoriana clássica tratada como… romantismo vitoriano.

A diversidade de personagens, a introspecção dos protagonistas, a visualidade rica, o melodrama da estrutura do enredo. O maneirismo que expande os limites da estética. Estilizando o que é esperado de recriações classudas de um período. Isso enquanto a linha central que guia o desenrolar da obra é um romance erótico ao mesmo tempo completamente ardente e plenamente sentimentalista.

O horror (sim, ainda tem espaço pra isso) surge, então, do coração partido, da dor e da fúria do amor perdido e da possibilidade do reencontro de almas apartadas pela tragédia do tempo. 

Jonathan Harker, o advogado e suposto personagem principal, se relega ao papel mais reles do protagonismo narrativo, de simplesmente costurar uma história, levá-la do ponto A aos pontos B, C, D. Mas sempre para dar espaço ao que importa realmente, uma paixão arrebatadora carregada pelos séculos.

Na prática, nas relações entre os personagens, o romantismo poético se desdobra, em vez de pela poesia virtuosa, pelos desejos carnais. Como se o filme se iniciasse por um extremo: o do desejo, da violência, do instinto e, séculos depois, seguisse por outro: o da pureza, dos costumes, das cartas escritas a fim de mascarar sensações com sentimentos. O horror, a aventura, o filme por si, acontece no choque entre uma coisa e outra.

Drácula, de um lado, como o ser animalesco mais puro, ligado à terra, às profundezas de seu covil; e Mina de outro, presa numa sociedade de doutrinação, civilização, ponderação.

(embora ela mesma se deixe encantar pelos fetiches de gravuras sexuais, festas da nobreza, desejos não ditos e muito menos concretizados)

A visualidade expressa tudo isso pelos caminhos mais fundamentais e mais basilares. O escuro, a sujeira, a natureza que se impõe, na Transilvânia. Em oposição à limpeza, a organização, o mundo de maravilhas tecnológicas de uma Londres domesticada. Mas essa estética vai além. Transcende.

Na cor, nos figurinos, nas formas e num equilíbrio constante vindo de um embate entre o mais direto e clássico com o mais maneirista e formal. 

Se em Londres a câmera flutua, os planos são construídos de uma riqueza minuciosa de detalhes, se desdobrando a partir do mais direto (plano aberto, plano médio, close e assim por diante); na Transilvânia do castelo do homem monstruoso, a gravidade parece se alterar, a física deixa de fazer sentido. Sangue cai pra cima, seres caminham pelas paredes, paredes estas que parecem se modificar de um momento pro outro. 

O próprio trem que vai de Londres para lá parece se tornar uma serpente, revelando um aspecto de fuga da civilização e entrada num ambiente selvagem.

A cena de delírio sexual com as esposas de Drácula se dá a partir de um quarto que parece existir em outro plano, uma cama sem fim, lençóis que parecem ter vida própria e seres pretensamente racionais que agem como animais no cio. 

Ainda nesse sentido, a própria construção visual dos personagens é concebida por figurinos, penteados, maquiagens estruturadas e de formas muito aparentes. Os vestidos de Winona, apertados, abotoados até o pescoço, contidos pelo espartilho, completos com chapéus que se fazem de manifestações sociais. Do outro lado, a forma da versão envelhecida de Drácula com seu robe enorme se arrasta e se expande como se ele tomasse conta de todo o seu redor, como uma criatura que rasteja pelo castelo. Com o cabelo branquíssimo e longo preso e dividido de tal forma que faz sua silhueta avermelhada uma materialização de um coração. 

Isso sem contar a armadura de guerra de Vlad: o empalador. Vermelha e construída a partir de linhas anatômicas que, no todo, parecem fibras musculares expostas, abertas.

O filme se faz com isso e com quadros feitos de contraluz e de silhueta, desejos e encantos que se concretizam a partir de névoas coloridas e personagens que representam os desejos contidos de outros (a amiga de Mina, que é um lembrete constante do erotismo que atormenta sua mente). 

Uma obra que é feita desse choque e desta paixão que se impõem de formas tão inescapáveis na concepção estética que chegam a quase anular os aspectos narrativos (e falhos) mais diretos da trama. Tanto que o desfecho vem quase como um choque. Um acordar de um sonho que nos lembra do cerne da história, dos pretensos mocinhos e vilões que existem por debaixo disso tudo.

Não sem antes nos presentear com mais uma das centenas de quadros estupendos pintados pela fotografia de Michael Ballhaus, um afresco de amantes eternos consumidos pelo fogo.

Drácula de Bram Stoker (Dracula, Francis Ford Coppola, EUA e Inglaterra, 1992)
Roteiro: Bram Stoker James V Hart

Elenco: Gary Oldman Winona Ryder Anthony Hopkins Keanu Reeves Richard E. Grant Cary Elwes Billy Campbell Sadie Frost Tom Waits Monica Bellucci Michaela Bercu Florina Kendrick Jay Robinson I.M. Hobson Laurie Franks Maud Winchester Octavian Cadia Robert Getz Dagmar Stansova Eniko Öss Nancy Linehan Charles Tatiana von Fürstenberg Jules Sylvester Hubert Wells Daniel Newman Honey Lauren Judi Diamond Robert Buckingham Cully Fredricksen Ele Bardha Alain Blazevic Mark Borkowski Mary Cornell Tina Cote Christina Fulton Jeffery Thomas Johnson John F. Kearney Paul Klar Michael Laren Moreen Littrell Joe Murkijanian Adamo Palladino Philip Pucci John Michael Quinn Heidi Schooler Damon Stout
Fotografia: Michael Ballhaus
Montagem: Glen Scantlebury Anne Goursaud Nicholas C. Smith

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