Fui ver meio com um ranço da ideia de filme testamento, que é como Cry Macho tem sido descrito por aí. Rejeito porque acho que Eastwood já conseguiu superar isso dentro do próprio cinema um bocado de vezes. Ele “se despediu” do símbolo que ele se tornou em Os Imperdoáveis, em Gran Torino, em Menina de Ouro enquanto personagem. Até mesmo em A Mula.

Mas depois de ver esse, não dá pra escapar dessa ideia. Talvez pela passividade consciente com a qual ele absorve todo o que vem na sua direção aqui, talvez pela sua figura – um senhorzinho de aparência frágil – tem um peso muito grande no que tudo acaba simbolizando. O mais forte dessa desconstrução, entretanto, vem justo da articulação mais objetiva, mais óbvia, do tema central da obra.

Um filme que vai lidar com as masculinidades que ele ajudou a perpetuar, com o questionamento dos signos ao redor disso e com um processo dramático de transcender. 

O classicismo absoluto que não abandona a sua estética se desdobra aqui pro bem ou pro mal. Pro lado mais frágil, acaba limitando, de certa forma, a dramaturgia melodramática fixada num livro de quarenta e seis anos. O gringo conquistador no México, as coinscidênias tolas da trama, o lado pueril de alguns diálogos. 

Até mesmo uma limitação do ator que vive o garoto que move esse enredo. Faz com que o filme exija uma adaptação do espectador, uma aceitação do estilo e até certo ponto uma acomodação de expectativas. 

O lado mais sólido e mais criativo da direção que se dá ao redor disso, entretanto, passa justamente por adequar esse encaixe do roteiro para o audiovisual como mais uma das camadas de desconstrução sobre as quais o filme opera. Cry Macho, afinal, é sobre essa sabedoria de se deixar absorver pelas forças ao nosso redor.

No aspecto de road movie, os veículos são movimentados sob eles, o mapa domina suas escolhas, as ameaças fazem com que eles decidam por onde ir. Uma dupla à mercê do que os cerca. Pensando no personagem, as roupas se modificam ao seu redor, as expectativas de realizar tarefas específicas são modificadas pelo contexto. 

O que impede que o filme se torne uma comédia de erros ou um suspense mais aberto, entretanto, é a forma como o protagonista encara tudo. Ciente das mudanças, das limitações, dos aspectos fora do seu próprio controle. 

Ele vê, por exemplo, um momento em que o garoto lhe prega uma peça (trocando de bebida com ele) e reage como se nada tivesse acontecido. Ele percebe que o menino toma as rédeas quando precisa roubar um carro e aceita de bom grado. Mas ele não abre mão como manifestação de fraqueza. Abre porque sua força está justo num autoconhecimento das limitações do próprio eu.

E mesmo quando os embates surgem, eles surgem como falas gentis. “Você não pode usar esse chapéu porque ele é um chapéu de cowboy”; “Eu não sei curar velhice”; “Eu costumava ser muitas coisas, mas eu não sou agora. Essa coisa de macho é superestimada”

Nessa lógica dos arredores que agem para modificar o personagem no centro de tudo, Eastwood traz uma beleza visual para a fotografia arrebatadora sem nunca extrapolar a ideia do cinema clássico na qual ele firmemente se agarra.

O mausoléu de glórias que é a sua casa, nas primeiras cenas, que absorve a câmera para o auge do passado empoeirado, consegue criar sem uma palavra sequer uma vida completa para aquele homem. Assim como as estradas desérticas sem fim trazem consigo uma carga de odisseia onírica ao desenrolar desse arco de um herói chegando ao fim da sua vida.

O momento mais belo, entretanto, e que captura o espírito da obra como um todo vem quando ele pára o carro e dorme sozinho sob as estrelas. Um horizonte clássico de western, montado a partir do cenário sem fim e da silhueta de um cowboy que de bom grado se deita no chão e desaparece no mundo de sombras que tem sob seus pés. 

Como se, depois de ter entregado todas as suas forças para a construção daquele legado, se deixasse sugar pela terra uma última vez.

Cry Macho: o caminho para redenção (Cry Macho, Clint Eastwood, EUA, 2021)
Roteiro: N. Richard Nash Nick Schenk

Elenco: Clint Eastwood Eduardo Minett Natalia Traven Dwight Yoakam Fernanda Urrejola Horacio García Rojas Marco Rodríguez Paul Alayo Brytnee Ratledge Amber Lynn Ashley Alexandra Ruddy Sebestien Soliz Daniel V. Graulau
Fotografia: Ben Davis
Montagem: Joel Cox David S. Cox

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