Correndo o risco de me conectar mais com o uso referencial do que com as obras que são referência por si, Maligno é um filme que – apesar de verter por todas as suas frestas, uma hemorragia abundante de alusões, citações, ressignificações de uma coleção diversa de subgêneros do terror (filmes slasher e giallo principalmente) – se sustenta por uma construção estética que nos faz embarcar completamente no absurdismo do enredo B e na estilização da forma ao redor disso para concretizar a ideia de percepção de realidade que é central à trama.

Encanta muito a estrutura de mutação que abarca o desenrolar da história. Começando por uma banalidade aparente que não parece nada mais que um filme apoiado na história triste de uma personagem e um bocado de informações esparsas. Nesta primeira parte, mesmo o controle formal quase clássico que Wan tem das cenas parece se apoiar demais num salpicar de subtextos e aleatoriedades.

Personagens limitados; a relação da história da cidade moderna de Seattle, construída sobre as ruínas da cidade antiga; uma conexão entre a protagonista e um serial killer violento. 

Por mais que, de uma forma ou outra, mesmo os ataques desta presença sombria desde então já tragam algo muito claro em relação ao que o cineasta parece querer homenagear. Cenas que parecem saídas do horror asiático dos 2000, presenças de cabelos longos que se movem de forma perturbadora, o terror do estado em que as vítimas são encontradas.

É fácil seguir listando tudo o que ele remete ou mesmo creditar só à criatividade da história tudo o que o filme se torna a partir daí. Mas é uma armadilha que pode nos tirar a atenção de como o diretor consegue articular por um formalismo criativo das cenas de violência a ideia central dos aspectos ilusórios do que ocorre. 

Esse conceito da imagem que engana, do aspecto ilusionista do cinema de gênero bem afinado. Coisa que respinga sem muito esforço numa ideia de metalinguagem. Como o uso dos arquivos em fitas VHS, os livros antigos que guardam flash drives dentro de si e a forma como o “monstro” usa dos aspectos midiáticos ao nosso redor como armadilhas. 

Mas é a casa o grande objeto de exploração disso. Filmada pela infinidade de ângulos, criando uma irregularidade de ambientação. Ora capturada de tomadas aéreas, ora do nível da rua,  às vezes parece estar numa rua movimentada, outras num campo deserto. Uma prisão para a sua única residente, uma materialização dos aspectos de aparente loucura de seu estado físico e mental, que parece colocá-la, no centro de tudo, como uma cobaia de laboratório.

Numa cena chave ainda na primeira metade, Wan cria, a partir de uma cena em que ela corre desesperada para fechar todas as portas e fugir para o seu quarto, uma maquete em tamanho real que mostra a personagem andando em círculos pela construção. Como se ela estivesse num pesadelo realizado, sem sequer entender do que ela foge.

Pensando nos aspectos mais diretamente narrativos, que se apoiam na contação dessa história, é tentador mirar nas fragilidades de alguns diálogos, na dependência de reviravoltas, numa certa “inverossimilhança” disso tudo. Coisas que revelam uma faceta conhecida de Wan, que é uma certa obsessão pelo poder da trama por si. 

Mas é na estilização, no referencial ao tipo de cinema B que ele homenageia e no aspecto absurdo que Maligno invariavelmente traz para seu centro, que o cineasta encontra algo que vai abarcar até mesmo estas “imperfeições”.  

Um filme que, justo por celebrar os aspectos mais pueris e mais divertidos de um cinema de atrações, acaba por justificar “falhas” que só seriam lapsos se analisados como representantes mais sisudos desse tipo de arte.

Maligno (Malignant, James Wan, EUA, 2021)
Roteiro: James Wan, Ingrid Bisu, Akela Cooper

Elenco: Annabelle Wallis Maddie Hasson George Young Michole Briana White Mckenna Grace Jacqueline McKenzie Jake Abel Ray Chase Jean Louisa Kelly Susanna Thompson Ingrid Bisu Zoë Bell Marina Mazepa Christian Clemenson Madison Wolfe Jon Lee Brody Paula Marshall Patrick Cox Rachel Winfree Paul Mabon Amir Aboulela Ruben Pla Patricia Velásquez Mike Mendez Renee Harbek Gino Montesinos Kalina Vanska Gregory Garcia Andy Bean Christina Veronica Janet Hsieh Halston Van Atta Louise Van Veenendaal
Fotografia: Michael Burgess
Montagem: Kirk M. Morri

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